domingo, 3 de setembro de 2017

A Soberba

(capítulo extraído do livro de contos "Não julgarás - Valeriana e outras sete", lançado pelo KDP em fevereiro de 2016)

Soberba: palavra que provém do latim superbia. Pecado capital definido comumente como a “estima excessiva da própria pessoa”. É também identificado como o desejo destorcido de grandeza. Gera vaidade, orgulho, arrogância, ambição, presunção, vanglória, gabolice, hipocrisia, ostentação, prepotência, desobediência, egocentrismo. Sinônimo: autoimagofobia: (auto + imagem, do lat. imago + -fobia). É um transtorno psicológico provocado por um desequilíbrio no processo de formação e propagação da própria imagem desencadeado por um medo patológico de não ser aceito em um determinado meio devido a uma supervalorização desse meio, e de sua hostilidade, e a uma desvalorização da sua identidade mais profunda. Pessoas que sofrem deste transtorno dedicam grande parte da própria energia à criação de artifícios que, segundo a visão distorcida que têm de si mesmas e dos seus semelhantes, são o único modo para conseguirem ser merecedoras de estima e admiração. No estágio mais agudo da doença, ocorre uma ruptura total entre o indivíduo e a imagem que constrói de si mesmo e isso faz com que fique extremamente suscetível a qualquer tipo de manipulação. Em acepção vulgar, autoimagofobia é designativo de um comportamento caracterizado pela mania de se envaidecer por meio da exaltação das próprias qualidades, muitas vezes imaginárias, gabar-se por pertencer a uma linhagem ilustre, nutrir sentimentos de superioridade em relação às outras pessoas. Manifesta-se também através da exposição ostensiva da própria humildade e estoicismo à espera de reconhecimento da sua superioridade moral. É elemento fundamental para a afirmação de um grupo como superior aos demais, dando origem a diversas ramificações comportamentais: nacionalismo xenófobo, todos os tipos de racismo, elitismo, corporativismo e doutrina de povos eleitos. Conforme a interpretação cristã, este vício é capaz de destruir todas as virtudes, pois denota a intenção de o indivíduo ser superior ao próprio Deus, criador de tudo, constituindo-se, em muitos casos, o ponto fraco do virtuoso. Os indivíduos acometidos por esta enfermidade menosprezam os sentimentos das pessoas e têm grandes dificuldades em estabelecer relações pessoais sólidas, embasadas em princípios que não envolvam práticas de coerção. Algumas metodologias formativas adotadas em âmbito corporativo valorizam a manifestação mais ou menos moderada deste comportamento, pois a ausência total dos sintomas característicos deste distúrbio é muitas vezes confundida com falta de autoconfiança e indica capacidade reduzida de utilizar todos os meios à disposição, até mesmo os mais inescrupulosos, para alcançar metas preestabelecidas. Em marketing, constitui matéria de estudos, pois é cientificamente comprovado que técnicas de promoção que empregam um fluxo abundante e repetitivo de imagens de um determinado produto, elaboradas conforme uma lógica específica e nem sempre fiéis à realidade, são eficazes na construção de opiniões positivas a respeito desse mesmo produto. Nota etimológica: a abundância de significados ligada à origem latina da palavra imagem dá margem a digressões interpretativas capazes de influir na construção da relação entre o indivíduo e a ideia de indivíduo. Do latim imago obtêm-se os seguintes significados: imagem, figura, retrato, fantasma, espectro, sombra, espírito dos mortos, ideia, conceito, representação mental, sonho, visão, aparição, aparência, aspecto, imagem ilusória, recordação, eco, reflexo de um espelho, semelhança, comparação, alegoria, fábula, alucinação, descrição. Antídoto ou virtude: humildade.

...

As folhas das árvores não davam muito espaço para a luz passar. Taísa não sabia distinguir muito bem se ali a mata era realmente mais fechada ou se estava escurecendo muito depressa. “Maldita hora em que eu aceitei o convite de uma amiga de um amigo do meu namorado” pensou ela enquanto girava em todas as direções tentando identificar para que lado o sol estava se pondo. Achava que a garota era simpática, mas nem a conhecia direito. Era uma como tantas que descem de vez em quando para o litoral e acham que já são do local porque os pais compraram um apartamento na praia quando eram crianças. “Como é que eu não percebi que isso não ia dar certo?” Taísa havia nascido e crescido naquela cidade à beira-mar rodeada pela majestosa Mata Atlântica. Vinha de uma família de pescadores e era possível que seus antepassados morassem ali desde muito antes que o país fosse descoberto e invadido por aquele pessoal ganancioso que veio do outro lado do oceano e tomou posse de tudo, sem pedir licença. Sempre achou que ela e toda aquela natureza eram uma coisa só. Havia aprendido que com respeito as coisas poderiam seguir o seu rumo harmoniosamente. Mas algo tinha dado errado.
Ela estava tranquila na sua casa curtindo sua manhã de folga quando a Márcia apareceu no seu portão toda sorridente e foi logo dizendo:
“Até que enfim encontrei você! Preciso recolher algumas sementes na mata, você não quer vir comigo?”
Taísa estranhou a presença dela ali, mas achou que não era uma surpresa ruim. Queria mesmo fazer alguma coisa diferente.
“Onde você está pensando em ir?”
“Pensei em pegar aquela trilha do Poção e subir até a parte mais alta do morro. A gente podia aproveitar também para dar um mergulho. Eu não queira ir sozinha, você conhece bem tudo isso aqui, não conhece?”
“Conheço, mas...”
“Mas o quê? Que desculpa você vai dar para ficar em casa sozinha em um dia de folga lindo como esse? A gente não vai muito longe.”
“Tudo bem, espere só um pouco porque eu tenho que fechar a casa.”
Taísa perguntou o que a Márcia estava levando para fazer a trilha e descobriu que ela só tinha uma bolsinha minúscula onde não cabia quase nada. Pegou uma mochila e começou a colocar tudo aquilo que era necessário para uma excursão daquele tipo. Quando terminou de preparar a bagagem, Márcia perguntou se podia guardar a bolsinha dentro da mochila, assim as duas poderiam revezar-se para carregá-la durante a caminhada. Taísa aceitou sem hesitar. Estava pensando em outra coisa. Como morava com a mãe que havia saído muito cedo para trabalhar, pensou em escrever um bilhete para ela dizendo para não se preocupar porque voltaria logo, mas não achou nenhuma caneta ali por perto e acabou não escrevendo nada. Não pretendia voltar muito tarde. Pensou em avisar seu namorado, mas àquela hora ele também estava trabalhando e era melhor não atrapalhar. Ligaria para ele quando estivesse de volta. O sol já estava alto em um dia que estava ficando cada vez mais quente e abafado, como era típico daquela época do ano. Havia aproveitado as primeiras horas da manhã para lavar e estender uma porção de roupas que se tinham acumulado durante o corre-corre da semana. Ela e a mãe dividiam os afazeres domésticos e quando tinha um tempo livre dedicava-se um pouco a isso. A mãe de Taísa trabalhava fazendo faxina em várias casas das redondezas e no verão o trabalho aumentava graças ao movimento constante de turistas; ela não rejeitava nenhuma oportunidade que pudesse trazer um pouco mais de dinheiro para a família, pois da prosperidade daquele breve período dependia a tranquilidade dos meses de vacas magras, que eram muitos. Há algum tempo Taísa havia arranjado um emprego como atendente em uma farmácia no centro da cidade e frequentava uma faculdade noturna de ciências contábeis. Sua mãe, que nunca mediu esforços para não deixar faltar nada à filha, não coube em si de felicidade quando a filha anunciou que pretendia continuar a estudar. Seria a primeira pessoa na família a ter um diploma universitário. Se fosse necessário, trabalharia de dia e de noite para ajudar a filha. O pai de Taísa abandonou as duas quando a menina ainda nem era capaz de pronunciar o seu nome. Moravam em uma casa de três cômodos geminada com a casa do seu avô, que ainda conservava no quintal muitas redes de pesca e passava horas a remendá-las, embora tivesse parado de pescar há muito tempo. O mar não ficava muito distante da casa deles e a trilha do Poção começava ali perto, no pé do morro.
Márcia adorava a natureza. Desde pequena vinha para a casa da praia passar as férias. Toda aquela exuberância da mata nativa exercia sobre ela um efeito quase mágico. Parecia ser um mundo mítico, intocado, como se fosse uma testemunha de um tempo em que a natureza não tinha que pedir licença ao homem para existir. Toda essa fascinação foi determinante para a escolha da sua carreira. Havia concluído o sexto semestre da faculdade de biologia e pretendia se especializar em técnicas de modificação genética para adaptar plantas da mata ao cultivo em outros ambientes a fim de contribuir para a diminuição do extrativismo predatório. Para ela a proteção da natureza era um assunto muito sério. Ajudava economicamente várias associações que defendiam o meio ambiente não só em território nacional, mas em todas as partes do mundo. Participava de tudo o que estava ao seu alcance para defender um modo de vida mais natural. Era vegetariana, usava roupas e sapatos produzidos de modo comprovadamente ético, evitava ao máximo comprar coisas feitas para durarem pouco. Quando realmente tinha que comprar algo, fazia questão de escolher só artigos de alta qualidade. Morava com os pais em uma metrópole caótica na qual a palavra equilíbrio andava muito em desuso. Tudo ali era exagerado: a quantidade de pessoas, o tráfego, a poluição, a pressa, o barulho, a agitação, a impaciência, a ganância, a violência, o medo, a indiferença, a injustiça, a feiura, a altura dos prédios, o lixo. Tinha que fumar muita maconha para aguentar. Achava uma grande idiotice continuarem a manter a proibição de plantar a erva em casa. Toda vez que seu fumo acabava era obrigada a comprar de pessoas com as quais detestava se relacionar. No final das contas, eram todos coniventes com a bandidagem, inclusive ela. Estava tudo errado, tudo. Mas, não adiantava ficar reclamando. Ia vivendo a vida do modo que podia, por mais contraditória que fosse. Quando tudo começava a ficar irritante demais, pegava o seu carro e descia a serra. À medida que o ar carregado de oxigênio e maresia começava a entrar no seu corpo, a sua alma ia se expandindo. Era uma sensação incrível. Às vezes descia a serra só para passar um fim de semana em meio à natureza, mesmo durante o inverno. Durante o tempo em que ficava por lá, procurava evitar lugares movimentados. Gostava de frequentar praias escondidas do grande público que, na maior parte das vezes, permaneciam assim por serem de difícil acesso. Para chegar até elas era preciso caminhar por trilhas que só pessoas do local conheciam. Tinha bons amigos ali. Era um pessoal tranquilo, que curtia as mesmas coisas e vivia na mesma sintonia que ela. Havia conhecido a Taísa e o seu namorado através de um amigo em comum que estudava com eles na única faculdade que havia na cidade. Achava estranho ver aquele pessoal tão legal tentando se especializar em uma matéria ligada a finanças, que, segundo ela, era um assunto que deveria ser completamente reformulado para que fosse possível reverter a situação de miséria e injustiça que vinha arruinando o mundo de forma cada vez mais agressiva. Era uma coisa que precisava ser feita, mas que parecia ser uma tarefa impossível. Quando ouvia entendidos do setor falando ficava impressionada com a segurança que transmitiam enquanto vomitavam um discurso que era a coisa mais surreal já produzida pela cultura humana. Não havia no mundo nada mais paralelo à vida do que o sistema financeiro. Paralelo no sentido mais restrito da palavra. Uma linha que corre paralelamente e que nunca encontra a outra, nem no infinito, mas que se aproxima ao ponto de quase se confundirem; a vida se deixa influenciar e se despedaça, o sistema financeiro consome a vida e segue adiante em direção ao vazio. Mas a sua geração não sabia fazer outra coisa além de sentir-se incomodada com as desgraças do mundo que herdou e deixar-se convencer da eficácia de novos métodos paliativos para fugir da realidade. No fundo, ninguém acreditava em mais nada. Até mesmo os seus amigos do litoral, que só seguiam aquele tipo de estrada porque achavam que não tinham outras opções. Muitos ali viviam do comércio, que era uma das poucas atividades que davam certo em um local turístico como aquele. Quando conheceu a Taísa, gostou dela. Desde que conversaram pela primeira vez achou que era uma garota interessante. Naquela manhã, Márcia havia acordado com vontade de conhecer um lugar diferente. Não estava a fim de água salgada. Queria mergulhar em água doce. Havia ouvido falar de uma piscina natural que o pessoal chamava de Poção. O tempo parecia perfeito. Resolveu passar na farmácia para combinar alguma coisa com a nova amiga e ficou sabendo que era seu dia de folga. Lá, souberam informar mais ou menos onde ela morava. Era um antigo bairro de pescadores que ficava a alguns quilômetros do centro da cidade. Foi até lá, perguntou por ela a alguns moradores e acabou encontrando a sua casa. Ela concordou com a sua ideia. Colocaram-se a caminho.
Havia chovido na tarde anterior e a trilha estava cheia de poças lamacentas, para a alegria da grande variedade mosquitos que as atacavam com voracidade. Pararam para passar mais uma camada de repelente nos braços e nas pernas. Na beira da estrada havia muitas goiabeiras e elas viram que algumas tinham frutas maduras. Comeram até ficarem cheias. Tudo parecia ter um sabor delicioso, até os bichos das goiabas.
A primeira parte da estrada era larga e não muito íngreme. Teriam que caminhar alguns quilômetros durante os quais o caminho se bifurcava várias vezes e era preciso saber muito bem qual direção tomar. Deviam continuar assim até chegarem a uma porteira. Teriam que atravessá-la e pegar uma trilha mais estreita e sinuosa que também se bifurcava em vários pontos ao longo do caminho. Taísa já havia percorrido aquele caminho dezenas de vezes. Na adolescência era uma das suas metas preferidas. Na maior parte das vezes ela ia com um grupo de amigos aventureiros. No final daquela fase namorou um rapaz que morava perto da sua casa e eles passaram a ir para lá sozinhos. Tomavam banho de cachoeira, fumavam um pouco, tomavam sol deitados nas pedras e namoravam preguiçosamente para depois mergulharem de novo na água gelada e transparente. Que período bom foi aquele. Só tinha que pensar em ir à escola, onde ninguém se importava realmente se ela estudava ou não, e curtir a vida. O mundo era uma coisa distante, tão real quanto um filme que por acaso se assiste à tarde na televisão, mas que não é muito interessante. Toda aquela felicidade ingênua acabou de repente quando seu namorado foi encontrado assassinado aos vinte e um anos em uma vala no próprio bairro onde moravam. Foi um choque. Disseram que foi um acerto de contas entre traficantes. Embora desconfiasse de alguma coisa, Taísa nunca havia perguntado quem eram os caras que às vezes encontravam na rua e que seu namorado cumprimentava com respeito e com um certo temor dissimulado e nem como ele estava fazendo nos últimos tempos para ter sempre à disposição dinheiro, fumo e tantas outras pequenas coisas. Sabia que ele não estava trabalhando. Ele sempre falava que não valia a pena ser escravo como os otários que se matavam de trabalhar para depois serem humilhados. Dizia “pobre não vale nada aí fora. Nós não vamos desperdiçar a nossa vida fazendo coisas sem sentido, vamos aproveitar ao máximo enquanto podemos. Eu estou dando um jeito nisso. Logo vou fazer uma casinha para nós aqui no morro e vamos deixar que o mundo se foda com suas regras para aprisionar as pessoas em uma vida infeliz.” Depois do que aconteceu, a vida de Taísa não pôde mais ser a mesma. Sua mãe não sabia como consolá-la; sentia-se impotente, magoada e, ao mesmo tempo responsável pelo destino que a filha poderia ter tido. Não conseguia tirar da cabeça a imagem da filha jogada naquela valeta fétida, violada e sem vida. Repetia para ela “nós somos pessoas honestas, temos os nossos problemas, mas não fazemos mal a ninguém. Você queria mesmo ser mulher de bandido? Era isso o que você queria? Depois de tudo o que eu fiz para dar a você uma vida digna?” No início Taísa revoltou-se contra tudo. Queria morrer. Odiava todos. Se pudesse, explodiria em pleno culto a igreja que a sua mãe frequentava, com toda aquela gente dentro que não entendia nada de nada e não parava de repetir insanidades como se tivessem entendido tudo. Estava enlouquecendo de tanto ouvir palavras desprovidas de qualquer compreensão real daquilo que se passava dentro dela e ver as expressões de satisfação daquelas pessoas que se imaginavam preenchidas por algum tipo de poder divino e, ao mesmo tempo, expulsavam centelhas de idiotia através de olhos dominados por uma altivez alucinada que era uma espécie de revanche inútil contra a ignorância massacrante que não parava de comprimir a mente delas. Estava cansada daquilo. Ninguém tinha autoridade suficiente para ajustar as coisas, ninguém. Se aquela era a justiça de deus, ele só poderia ser um grande filho da puta. O que lhe restava para viver dali para frente? Nada. Pensou qual seria o modo melhor de acabar de uma vez com toda aquela palhaçada. Cogitou várias possibilidades. Rejeitou a maior parte delas, porque as formas que conhecia de automutilação lhe causavam uma inexplicável repulsa. Por mais que detestasse sua vida não tinha coragem de atentar diretamente contra o próprio corpo. Toda vez que tentava, sentia-se derrotada pela própria covardia. Uma vez, sozinha em casa passou em revista todas as lâminas que tinha à disposição. Achou uma faca grande que sua mãe havia afiado recentemente e que usava para limpar os peixes. Tentou imaginar quantos peixes haviam sido cortados com ela sem que nenhum drama se desencadeasse. Reconstruiu mentalmente o movimento suave da lâmina bem afiada entrando na carne da barriga, as vísceras sendo retiradas com rapidez e jogadas no lixo, os pequenos cortes feitos na pele para que o tempero pudesse penetrar. Não seria tão difícil cortar um pouco de carne com aquela faca. Mas viu também a sua mãe temperando o peixe. Viu como ela amassava os dentes de alho descascados e as ervas perfumadas e misturava tudo com o sal formando uma pasta de cheiro forte. Viu sua mão passando o tempero no peixe e espremendo limão sobre ele. Aquilo era um alimento, não um símbolo de morte apesar de o peixe estar morto. Nunca conseguiu entender exatamente o que aconteceu naquele dia, mas a partir dele começou a se sentir menos atraída pela ideia de acabar com a própria vida. A raiva foi passando lentamente como se fosse uma estação do ano. De repente ela estava de novo sem saber muito bem o que fazer, mas com vontade de fazer alguma coisa.
As duas caminhavam sem pressa e Márcia parava de vez em quando para recolher algumas sementes. Já estavam bem embrenhadas na mata quando ela tirou a sua bolsinha da mochila que no momento Taísa carregava e pegou um baseado enrolado com capricho e um isqueiro. Acendeu-o com naturalidade, deu umas tragadas e ofereceu para Taísa que recusou.
“Não fumo, parei já faz tempo”.
Márcia ficou um pouco surpresa e perguntou:
“Eu não sabia, você se importa se eu fumar?”
Taísa respondeu que não e fechou-se em si mesma. Andaram por um bom trecho em silêncio até que Márcia resolveu interrompê-lo para entender melhor o que estava se passando. Achou que talvez tivesse feito ou falado alguma coisa que tivesse chateado a companheira. Voltou-se para ela e perguntou:
“Está tudo bem? Ficou calada de repente. Falei alguma coisa que você não gostou?”
“Não se preocupe, não tem nada a ver com você, é coisa minha. Daqui a pouco passa.”
Continuaram caminhando, cada uma entretida com seus próprios pensamentos. Taísa ficou um tempo refletindo se valia a pena ou não falar sobre o que estava sentindo com aquela garota que não sabia absolutamente nada sobre a sua vida, mas que parecia já estar bastante satisfeita com a ideia superficial que havia construído a respeito dela. Parecia que não lhe interessasse ir muito além. Então, preferiu não mencionar nada a respeito das sensações estranhas que a invadiam naquele momento. Já havia aprendido a duras penas que na maior parte dos casos era uma grande perda de tempo falar sobre coisas pessoais com quem ela não conhecia muito bem. Decepcionou-se com muita gente que no início tinha pinta de ser bacana, bem resolvida, sensível, que parecia gostar das pessoas e das coisas simples da vida, mas que, na verdade, não era nada disso. Na hora “H” esses sujeitinhos agiam como se tivessem nascido com um bilhete de primeira classe na mão, como se garantir o melhor lugar para si mesmos fosse a única coisa importante no mundo. Só se interessavam realmente por aquilo que pudesse representar uma vantagem para eles, os outros que se ferrassem. Não estavam nem aí. O mundo podia estar desmoronando ao redor, mas se ficassem ilesos, tudo bem. Por trás da aparência legal, eram uns tremendos chatos. E esse defeito era muito comum no pessoal “alternativo” cheio de grana que vinha passar um tempo na sua cidade ou decidia instalar-se definitivamente em uma casa estilosa no meio do mato. Mas analisando bem as coisas, tinha que admitir que esse modo de agir não dependia apenas da classe social. Conhecia muito pobre que também era daquele jeito, mesmo não tendo quase nada na vida. Ela não sabia dizer qual tipo era o mais ridículo. Havia também a turminha dos exibicionistas, para com os quais não tinha a menor paciência, mas Taísa implicava realmente com aqueles que competiam para ver quem conseguia ser o mais heroicamente fodido na vida, que disputavam para ver quem resistia melhor às desgraças que eram quase tão frequentes no seu cotidiano quanto respirar. Porém, considerava que os perigosos de verdade - porque sempre acabavam arruinando seriamente a vida dos outros - eram os que se organizavam em grupos e se consideravam eleitos para fazer algo muito especial. Na maioria das vezes, a coisa que eles tinham a fazer era tão maravilhosamente especial que nem dava para entender o que era. Ninguém entendia direito, mas isso só aumentava a certeza de que era algo muito importante. Uma espécie de delírio coletivo. Insuflar o lado misterioso das coisas é um modo astuto para agregar um valor acessório, e intangível, a coisas que deveriam ser regidas pelo simples bom senso. Religiões, doutrinas, regimes e utopias justificam-se através da existência do lado oculto que envolve todas as coisas, exilando do reino da poesia aquilo que não é capaz de manter a própria integridade em nenhum outro lugar. Taísa lembrava-se de ter lido algo parecido recentemente, mas não se lembrava de onde. Na verdade, o importante era acreditar ou simplesmente manipular a coisa para fazer com que os outros acreditassem nela, pois, em sociedade, uma farsa que se finge junto é realidade. Desde que o mundo era mundo vinha sendo povoado por esse tipo de gente e iria continuar daquela maneira ainda por muito, muito tempo, até que a raça humana sofresse alguma mutação genética que extirpasse aquela necessidade doentia de afirmação. Taísa sabia que ela mesma não estava livre daquele defeito de fabricação, mas procurava manter-se dentro de uma média aceitável. Não havia nada a fazer a respeito. Em relação à sua nova amiga, ainda não sabia ao certo em que categoria encaixá-la, mas sabia que devia ser precavida em relação a ela, pois aquela atitude de colocar fumo na sua mochila sem avisar era uma demonstração de que não se importava muito com a opinião de quem estava ao seu lado. Era sempre a mesma história. Não podia abaixar a guarda para não deixar que nenhum espertinho montasse nas suas costas. “Se aprontar mais alguma, vou dar um belo chacoalhão nessa garota, ela que não brinque comigo” disse a si mesma. Mas, na verdade, aquelas coisas corriqueiras não eram o motivo da sua perturbação. O que estava acontecendo era que naquele momento algumas recordações estavam vindo à tona com uma força inesperada. Talvez tivesse sido por causa daquele cheiro forte que saía do baseado combinado a um cenário sugestivo que ela não via há muito tempo. Era a primeira vez que voltava lá depois de tudo o que havia acontecido. Passaram-se alguns anos desde então e quando finalmente conseguiu superar a fase mais difícil resolveu colocar uma pedra sobre o passado. Enterrou toda a dor e também tudo o que havia sonhado naquele período. Toneladas de sonhos e ideias que não cabiam mais na sua vida. Sentiu-se incomodada quando, por alguns instantes, teve a sensação de que mais alguém caminhava ao seu lado ali na estrada. Seu coração acelerou e a sua pele ficou toda arrepiada. Tentou dissipar aquela presença apertando mais o passo.
Aos poucos o clima entre as duas foi se descontraindo novamente. Pararam várias vezes para pegar mais sementes e falaram sobre muitas coisas sem importância. Alcançaram a porteira e entraram na trilha mais estreita. A partir daquele ponto, estavam dentro de uma propriedade privada, mas não havia ninguém para tomar conta dela e podiam seguir tranquilas. Era a primeira vez que Taísa subia ali sem ter ao seu lado mais alguém que também soubesse o caminho, mas tinha certeza de que se lembrava bem. A subida era íngreme e a respiração acelerada impedia que falassem muito. Já conseguiam ouvir ao longe o barulho de vários cursos d’água que desciam a ribanceira com muita força. Em meio à vegetação era possível ver algumas espécies vegetais diferentes daquelas mais comuns presentes no pé do morro. Dava para perceber que era um lugar bem preservado. Estavam subindo um trecho particularmente acidentado e cheio de pedras quando Márcia se maravilhou ao avistar a uma certa distância da trilha uma árvore enorme que achou que fosse uma espécie ameaçada de extinção. A partir daquele ponto a trilha se desmembrava em uma série de pequenas passagens mais ou menos estreitas em meio a formações rochosas de vários tamanhos. Taísa avisou a companheira que era melhor ela não se afastar sozinha da trilha, pois ali era fácil de se confundir e pegar uma direção errada. Só que quando falou isso, ela mesma já não tinha tanta certeza de que havia escolhido o caminho certo. Não conseguia se lembrar muito bem, mas parecia que das outras vezes não havia passado por um lugar tão difícil de atravessar. Poderia ser apenas uma impressão, pois depois de alguns anos era de se esperar que a paisagem estivesse um pouco diferente. Talvez a trilha que conhecia tivesse se fechado naquele ponto e agora o caminho fosse aquele. Resolveu não falar nada para não alarmar a companheira. Márcia não deu muita importância ao que a outra estava falando. Sabia que às vezes o pessoal do local exagerava tratando-a como se não soubesse se comportar em uma situação como aquela. Há anos fazia trilhas em lugares isolados e não era nenhuma ignorante no assunto. Preferiu fazer de conta que não havia ouvido a advertência. Não adiantava perder tempo tentando explicar que ter encontrado aquela espécie rara era algo tão fantástico que seria uma idiotice desperdiçar a oportunidade de pegar algumas sementes. Tinha ido ali para isso. Quando já havia dado alguns passos destemidos e um pouco desequilibrados em direção à mata fechada, voltou-se para trás e disse simplesmente que voltaria logo. Taísa, ao ouvir aquilo, resolveu sentar-se sobre uma pedra e esperar. Achou que a Márcia era já era bem grandinha para saber o que podia ou não fazer. “Afinal de contas, não sou a sua babá e nem o seu guia turístico particular. Ela que vá sozinha” pensou. De repente, lembrou-se de um detalhe e falou bem alto para que a Márcia pudesse ouvir:
“Espere! Volte aqui! Deixe a mochila comigo!” e ouviu uma voz distante responder:
“Não precisa se preocupar, eu já volto!”

Taísa estava irritada.  Mal podia esperar para dar um mergulho na água gelada, pois o calor era forte e os mosquitos pareciam querer arrancar pedaços do seu corpo. Era um grande alívio quando uma brisa fresca soprava de vez em quando. Precisava passar mais repelente e estava sem a mochila. Queria saber que horas eram, mas o seu celular também havia ficado lá dentro. Estava começando a reavaliar seus planos, pois quando saíram da sua casa a manhã já estava pela metade e haviam parado muitas vezes durante o percurso para recolher as malditas sementes da Márcia. Ainda tinham um bom pedaço de estrada pela frente e depois o retorno. Talvez fosse melhor desistir de chegar ao Poção e voltar para casa. Não podia nem imaginar a ideia de percorrer aquela trilha no escuro. Após alguns minutos começou a ficar impaciente. Levantou-se e chamou bem alto a companheira pelo nome. Ninguém respondeu. A impaciência cedeu lugar à preocupação. Não podia ficar ali parada, mas, se saísse, sabia que correria o risco de se perder ou de se desencontrarem. Gritou com mais força o seu nome e continuou a não receber resposta. Resolveu caminhar em direção à árvore que havia chamado a atenção de Márcia. Procurou por uma árvore bem grande, mas não identificou nenhuma que fosse particularmente diferente das outras. Não conseguia distinguir muito bem a diferença entre elas. A um certo ponto parou desanimada perguntando-se onde aquela irresponsável tinha ido parar. Se fosse mais para longe, o risco de se perder aumentaria. Tinha que decidir rapidamente o que fazer. Não era culpa dela se a outra era uma desvairada que só pensava em si mesma. Se as duas se perdessem, quem as acharia se ninguém sabia para onde tinham ido? Estava voltando lentamente na direção das pedras quando uma ideia passou pela sua mente e paralisou seus movimentos. “Ela pode ter desmaiado. Escorregou na ribanceira e bateu a cabeça. Se ficar ali sozinha pode morrer. Preciso encontrá-la. Se eu achar a mochila posso tentar chamar alguém pelo celular.” Deu meia volta e tentou se orientar. Caminhou por entre as árvores às quais muitas vezes teve que se agarrar para não deslizar ribanceira abaixo. Depois de um bom tempo sem encontrar sinais da passagem da Márcia, atingiu um ponto menos íngreme e percebeu que já havia passado por ali. Parou, muito confusa. Estava exausta e sentia muita sede. Perdeu a conta das horas. Olhava para cima para tentar se orientar. O céu parecia ter escurecido de repente e o vento soprava forte. Uma tempestade estava se formando. Podia ouvir o som dos trovões que rugiam cada vez mais próximos. Sentiu o pânico dominá-la diante da possibilidade de passar a noite sozinha naquele lugar. Pensou nos seus medos e nos fantasmas que teria que enfrentar. Em um primeiro momento, sentiu uma raiva feroz de Márcia por tê-la colocado naquela situação. Talvez estivesse morta. Depois sentiu raiva de si mesma. Deveria concentrar-se para sair viva dali. Só queria entender uma coisa. Perguntava-se como fora cair em uma armadilha como aquela. 

terça-feira, 25 de abril de 2017

A Avareza



    Avareza: palavra que provém do latim avaritia. Pecado capital definido comumente como o “amor desregrado pelo dinheiro e bens materiais”. Segundo algumas tradições, as desordens provocadas pelos excessos relacionados a esse pecado não se restringem ao aspecto material, sendo que as suas manifestações em âmbito espiritual, material e mental são ainda mais sutis e perniciosas. Gera mentira, traição, perjúrio, fraude, inquietude, violência, ausência de empatia, mesquinhez, ansiedade. Há evidências de que este vício tende a se intensificar com a idade. Sinônimo: supermaciçose: em acepção vulgar, o mesmo que ganância, cobiça, sovinice (supermaciço - em astrofísica, adjetivo que qualifica um buraco negro com superconcentração de massa + sufixo -ose). Como termo próprio da linguagem médica, refere-se a uma perturbação psíquica caracterizada pelo desenvolvimento de comportamentos paranoicos cuja evolução manifesta-se em forma de compulsão por adquirir e conservar em seu poder ao longo da vida a maior quantidade possível de matéria ou valor equivalente, o que dá origem a um desequilibrado campo sócio-gravitacional que provoca uma dilatação anormal da sua capacidade de atrair e agregar mais matéria. Em jargão econômico, é designativo de transações financeiras vultosas que incrementam o patrimônio de grandes corporações internacionais, ampliando ainda mais a sua influência em âmbito geopolítico. Acumulação excessiva, pavor persecutório, desejo obsessivo de controle, poder, isolamento, psicopatia, pobreza. Antídoto ou virtude: generosidade, contentamento.

...

    A professora Leila já havia feito a chamada e estava escrevendo na lousa o tema que seria discutido na aula de religião e a classe fazia um barulho tremendo. “Que gentinha mal-educada” pensou. “Silêncio! Prestem atenção ao tema de hoje e escrevam no caderno!” e leu em voz alta o que havia escrito na lousa: “Ética e Cidadania: o Bom Cidadão.” Sentiu uma pontada aguda nas têmporas e sabia que aquele era um sinal de que a sua habitual dor de cabeça estava chegando para ficar. Dar aula daquela matéria em escolas públicas não era uma tarefa fácil. Tinha uma licenciatura em química, mas naquela região só conseguiu fazer algumas substituições que não eram suficientes para complementar o orçamento da família depois que ela e o marido resolveram fazer um financiamento para comprar um apartamento. Quando assinou os papéis do contrato percebeu que não havia adquirido uma casa: a casa era do banco e a dívida era sua. Optaram por aquela solução porque parecia ser a mais razoável. “Pagar aluguel é jogar dinheiro fora” dizia seu marido que já andava contrariado com o fato de não conseguir fazer nada com o dinheiro do seu duro trabalho além de apenas sobreviver. Uma vez ele se lamentou com uma gravidade no olhar que a deixou preocupada: “A gente precisa dar um sentido a tudo isso. Trabalhar por trabalhar sem conseguir comprar nada é muito desestimulante. Às vezes dá vontade de desistir de tudo.” Ela pensou em argumentar dizendo que não estavam apenas sobrevivendo, estavam tendo a oportunidade de viver uma vida juntos, tinham o privilégio de compartilhar amor, cumplicidade, amizade, intimidade e que isso era suficiente para ela seguir adiante sem hesitar, pois são coisas que não têm preço. Mas percebeu que ele a olharia como se estivesse assistindo a mais uma ridícula propaganda de cartão de crédito que enfatiza quanto as relações humanas são belas quando se tem dinheiro à disposição. Era ele quem arcava com grande parte das despesas do casal e estava descontente. Estava prestes a declarar a falência do casamento que vinham mantendo modestamente há três anos. Ele precisava de algo mais consistente. Alguma coisa que pudesse tocar com as próprias mãos, à qual pudesse atribuir um valor real. Não era pedir demais, era simplesmente encarar a realidade. Quem não tem ambição acaba ficando de mãos vazias e ninguém leva a sério. Vira piada. Todo mundo sabe disso. Nem é preciso participar de quinhentos mil cursos motivacionais na empresa em que trabalha para entender um conceito tão simples. O seu marido só estava querendo dizer que nem tudo em um casamento tinha que ser tratado com sentimentalismo ou pieguice. Tinham apenas que ser práticos. Tinham que comprar um apartamento. E assim foi. Quando ela ficou sabendo que a professora de religião daquela escola iria embora, acendeu-se uma luzinha na sua cabeça – que não tinha nada a ver com ter uma ideia genial ou algum tipo de iluminação espiritual. Informou-se sobre o que era necessário para ser admitida como uma professora de religião e descobriu que bastava ter uma licenciatura de qualquer coisa. Não havia nenhuma outra exigência. Não teria que fazer nenhum curso de formação. Nada que fosse complicar a sua vida. Foi sincera com a diretora dizendo que não era uma pessoa religiosa, era uma católica não praticante. A diretora disse que era até melhor que fosse assim, deu-lhe uma cópia das diretrizes que regulamentavam o ensino da matéria, disse que ela deveria ler as informações com atenção, mas que não precisava ficar preocupada, pois na prática tudo aquilo era bem mais simples do que parecia. Enfatizou que o importante era procurar seguir sempre uma linha laica, como previa a lei, e tranquilizou-a dizendo que havia muito material sobre o assunto disponível na internet. Ela deveria usar o bom senso, ser o mais imparcial possível ao abordar cada religião, evitando ser tendenciosa e discriminatória, pois isso poderia criar problemas com os pais dos alunos. “A gente precisa prestar atenção para não ofender ninguém porque já existem casos em que as escolas foram processadas por falarem mal da religião alheia. Tome cuidado com isso; o resto vai ser fácil.” Leila assumiu as aulas sem ter a menor ideia de como programá-las. Teria que ser rápida, pois podia contar apenas com o final de semana para organizar tudo. Recolheu o material que encontrou na internet, e viu que de fato não era tão abundante assim, pois a maioria dos programas que achou eram no mínimo tendenciosos. Se fosse considerar criteriosamente as diretrizes, nenhum deles serviria para ser aplicado em sala de aula. Sentiu-se ligeiramente apavorada. Pescou aqui e ali algumas ideias neutras - que quase não se encaixavam no tema de tão neutras que eram. Transitou entre textos de autoajuda e psicologia de salão. Recolheu algumas frases de personagens famosos. Leu alguns resumos de teses acadêmicas que conseguiam reduzir as grandes questões da humanidade a parágrafos telegráficos. Fez uma lista na qual procurou incluir do modo mais abrangente possível nomes e definições objetivas a respeito das religiões mais importantes praticadas no país. A lista acabou ficando muito extensa. “Puxa vida, quanta criatividade tem essa gente!” Tentou elaborar algumas perguntas que poderiam fazer com que os alunos participassem de uma discussão. Duvidou que aquele compêndio feito às pressas seria capaz de suscitar o interesse dos alunos. Decidiu que não deveria esquentar muito a cabeça, pois era óbvio que se os responsáveis realmente pretendessem alguma coisa daquelas aulas de religião, não teriam deixado que uma professora de química sem nenhuma experiência ficasse encarregada de elaborar o programa. “Se eu pudesse ensinar química seria tudo muito mais fácil, mas por que as coisas devem ser fáceis na nossa vida, não é mesmo?” Riu de si mesma porque estava prestes a responder à pergunta usando uma das frases prontas que havia anotado durante a sua inusitada incursão humanística pela rede. “Isso não vai servir para nada, ou melhor, só vai servir para eu pagar a prestação do próximo mês.” Na sala de aula, Leila viu que os alunos já haviam copiado o tema do dia escrito na lousa e olhavam curiosos para ela. Já se conheciam porque ela havia substituído recentemente a professora de ciências deles que se ausentou por uns dois meses para fazer um tratamento de saúde. “Agora, prestem atenção nas perguntas que vou fazer para vocês. Quem responder certo vai ganhar um ponto positivo. Alguém sabe dizer o que é ser um bom cidadão?”
    Uma menina levantou o braço indicando que queria falar. Em vez de responder, perguntou:
    “Professora, esta aula não é de religião? A gente não vai falar de Deus e do diabo? Eu sei o que é o diabo.”
   “Eu quero saber se alguém sabe responder à pergunta que eu fiz” retrucou Leila em tom de reprovação.
    “Mas, professora, – insistiu a aluna – a gente não ia falar de religião?”
    “Se você não sabe responder, fique quieta e não atrapalhe”.
    A menina encolheu-se na cadeira com uma expressão contrariada. 
    Três alunos levantaram a mão. Leila pensou que a coisa podia dar certo. Estavam participando. A maior parte dos alunos prestava atenção. Queriam saber onde aquilo ia dar. “Vamos lá.” Apontou para um menino que sentava no fundão e parecia ser maior que os outros. Ele era do tipo que não passa desapercebido pelos professores, estigmatizado na escola como aluno problemático, provinha de uma condição familiar ainda mais precária do que a maioria. Ela disse “pode responder” pensando que seria uma boa estratégia envolver na discussão também os alunos menos aplicados que formam o grupo dos apáticos ou dos bagunceiros. E ele respondeu:
    “Bom cidadão é uma cidade bem grande cheia de mulher gostosona.” A sala caiu na gargalhada.
    “Seu idiota, desgraçado, eu te mato!” Leila pensou, mas não falou. Bateu na mesa e berrou pedindo silêncio. Tinha que punir o aluno engraçadinho para não perder de vez o respeito da turma. Enquanto pensava no que fazer, a mesma menina de antes levantou o braço novamente e ficou de pé. Não estava rindo. Ela nem esperou receber autorização e começou logo a falar bem alto, quase gritando para que sua voz aguda conseguisse ser escutada em meio àquele pandemônio. Seus olhos denotavam uma certa histeria.
    “Professora, tá vendo? É isso que acontece quando a pessoa não invoca o poder do Nosso Senhor para afastar o diabo. Ele toma conta!!! Eu quis avisar e a senhora não deixou. Olha só o que ele fez! Agora vai ter que expulsar o diabo daqui!
    Leila pediu silêncio mais uma vez, concentrou-se para tirar de dentro de si a postura mais autoritária possível, que costumava ser bastante eficaz em situações daquele tipo, apontou o dedo para seus alunos enquanto falava com uma expressão ameaçadora:
“Você aí, sente-se imediatamente e pare de falar besteira. Não quero ouvir mais nenhuma palavra sobre o diabo. Estamos na escola, não em um manicômio. Sabe o que é um manicômio? É onde internam gente louca. Tome cuidado com o que você fala. Você aí no fundo, qual o seu nome? Vai receber um ponto negativo. Se quiser fazer gracinha, fique em casa torrando a paciência da sua mãe que pelo jeito não soube dar educação para você. Não venha para escola atrapalhar quem quer estudar e ser alguém na vida. Você sabe o que acaba acontecendo com quem não estuda, não sabe? Vira burro de carga ou vai pedir esmola, como muita gente por aí que você conhece bem.
A encenação pareceu surtir o efeito desejado. Silêncio. Dois alunos humilhados e uma professora redimida. 
    “Vamos lá, pessoal. Quem responder direito à pergunta agora vai ganhar dois pontos positivos: o que é ser um bom cidadão?”

terça-feira, 4 de abril de 2017

A Inveja

(capítulo extraído do livro de contos "Não julgarás - Valeriana e outras sete", lançado pelo KDP em fevereiro de 2016)


Inveja: palavra que provém do latim invidia. Pecado capital definido comumente como “Tristeza com o bem de outrem, porque esse bem é entendido como uma diminuição da sua própria excelência pessoal”. É um vício derivado da soberba. Não é um defeito genético, mas pode se perpetuar por uma má formação da consciência moral no ambiente familiar. Consiste também no regozijo pela desgraça que sucede ao próximo, como se a felicidade alheia fosse um fator de perturbação da própria felicidade. Gera exultação pela adversidade alheia, calúnia, maledicência, delação, ódio, aflição pela prosperidade, murmuração, mau-olhado. Na forma de ciúmes, a inveja é proibida nos Dez Mandamentos da Bíblia. Sinônimo: sadocompetitividade: (sadismo + competitividade) designativo de uma das qualidades que constituem a base das relações interpessoais nas sociedades humanas, desde os seus primórdios. Estado de insatisfação íntima permanente em relação a múltiplos aspectos da própria condição de indivíduo que consagrou a busca ostensiva por reconhecimento externo, muitas vezes através da aquisição de bens materiais, como método de estabelecimento da própria supremacia e foi um fator fundamental para a evolução dos intercâmbios sociais e econômicos nas várias comunidades até a obtenção do sofisticado sistema financeiro global adotado atualmente. Perversão largamente estudada e explorada pelos mecanismos de manipulação de massa que geralmente se manifesta por meio de agressão psicológica, que, diferentemente da agressão física, na grande maioria dos casos não é considerada grave e passível de punição. Constitui um comportamento socialmente aceito que contribui para o aperfeiçoamento de métodos de hierarquização que estabelecem a posição de um indivíduo dentro de uma coletividade. Obtusidade, inconsistência, insatisfação, incapacidade, insalubridade, infelicidade. Antídoto ou virtude: compaixão, empatia.

                                                                          ...

      Regiane sentia vergonha do que havia feito, mas não muita. Claro, se alguém descobrisse a verdade, a vergonha seria maior. Mas, até o momento, estava tudo sob controle. Ainda bem. Na verdade, nutria um certo senso de culpa porque não era um monstro, era só uma pessoa como todas as outras. Era imperfeita, ou melhor, perfeitamente imperfeita. Mas se perguntava: “existe alguém que não seja assim? Não. Mas, infelizmente, muitas pessoas não tinham humildade suficiente para admitir isso. Pensavam que eram perfeitas, que não tinham defeitos, só caprichos, traços que tornavam a sua personalidade ainda mais fascinante. Alguém tinha que fazer alguma coisa para tirar essas pessoas do pedestal. Fazer isso é prestar um serviço para a comunidade e também para esses que se julgam os reis da cocada, embora tenham que sofrer um pouco com a queda. Mas o que eles pensam? Que vão conseguir viver a vida inteira como se estivessem de férias da realidade? Não é correto todo o mundo estar comendo o pão que o diabo amassou enquanto alguns continuam a agir como se vivessem em uma bolha de felicidade. Claro que isso não está certo. Não adianta ficar assistindo a isso de braços cruzados como se a vida fosse uma novela. Muita gente faz assim. Fica esperando chegar aquele capítulo da novela no qual o personagem intragável se dá mal e acha que justiça foi feita no mundo. Vai dormir satisfeito e no dia seguinte está pronto para ser humilhado de novo. Tem gente que precisa tomar algumas doses de verdade na veia. Tratamento de choque mesmo, senão não acorda. Tudo ao vivo e a cores.” Ela teve que interromper os seus pensamentos porque os primeiros clientes já se acumulavam na frente do guichê. “O próximo” disse ela para o primeiro da fila, e mais um dia de trabalho começou. Regiane trabalhava em uma das poucas agências bancárias de uma simpática cidadezinha do interior, onde todos se conheciam. Ali era um lugar muito bom para quem gostava de levar uma vida pacata. Os jovens costumavam ficar entediados e muitos iam para a cidade vizinha quando queriam se divertir, pois era bem maior e mais desenvolvida. Naquela agência, a rotina permanecia a mesma há muitos anos. Às vezes acontecia alguma mudança na chefia, pois os gerentes tinham que fazer uma espécie de rodízio entre vários pontos de atendimento para evitar o surgimento de alguns vícios que se podem manifestar quando alguém acaba criando raízes em uma posição de comando. Como quem ocupava a função de caixa não tinha este problema, há mais de uma década os clientes encontravam sempre os mesmos rostos por trás do vidro espesso do guichê. Ao lado de Regiane que, como diz o próprio nome, irradiava algo de régio e fazia questão de ocupar sempre a posição central, sentavam suas colegas Lucinha e Clotilde. Tinham suas diferenças, mas, de um modo geral, a convivência entre elas não apresentava nada de anormal, bastava respeitar a hierarquia e a paz estava garantida. Lucinha era a mais tímida das três, e também uma pessoa muito dócil que concordava com tudo e preferia voltar atrás nas suas posições para não fomentar discórdias. Era um alívio para Clotilde ter a Lucinha ali, pois, assim, pelo menos poderia estar certa de que não seria a última na classificação geral. Detestava fazer o papel daquela cuja opinião não vale nada. Bastava olhar para a Lucinha com uma expressão irônica que denotasse um pouco de contrariedade e ela já começava a gaguejar. Era fácil fazer com que ela se sentisse inadequada quando era preciso. Clotilde havia se acostumado tanto com esse recurso que às vezes ficava até ansiosa esperando que Lucinha desse alguma deixa. Assistir às suas tentativas humilhantes de se justificar por algum erro que não havia cometido e afundá-la mais ainda no próprio embaraço apenas com um movimento quase imperceptível no canto da boca era um modo infalível de recarregar a própria autoestima. Em relação à Regiane, já era uma história bem diferente. Era preciso ter sempre cuidado para não dizer nada que pudesse ferir a sua sensibilidade, pois sabia que ela podia ser muito vingativa. E era melhor evitar situações embaraçantes. Já havia tentado abaixar um pouco a sua crista no passado e não havia obtido bons resultados. Aliás, os resultados foram péssimos. “As pessoas precisam saber agir com ponderação senão a convivência se torna impossível. Não dá para viver em pé de guerra o tempo todo. Já tenho que lidar com o stress do trabalho, não posso ficar me desgastando por qualquer bobagem”, repetia Clotilde para si mesma toda vez que recebia uma alfinetada proveniente do guichê central. Sentia-se bem quando conseguia superar a situação mantendo um certo ar de impassibilidade. Sabia que uma reação neutra seguida de um pouco de adulação sempre funcionava com Regiane. A sequência melhor era: hum, hum; pausa; olhar atento e demorado para algo que ela estivesse usando; nossa, que lindo isso! Onde você comprou? Tinha que seguir mais ou menos essa sequência. Às vezes Clotilde até desconfiava que as alfinetadas chegavam justamente com este intuito. “No fundo eu tenho dó da Regiane. Com aquele traste de marido que ela tem, não poderia ser diferente. Quando os vejo juntos, agradeço a Deus por nunca ter me casado. Ainda bem que dali não saiu nenhum filho, certamente seria um monstrinho. Entendo perfeitamente porque ela tem essa obsessão com a própria aparência. Precisa investir um bocado para melhorar um pouco o visual. Deve gastar o salário inteiro em roupas e sapatos e mesmo assim a primeira coisa que se nota nela é a cara de quem chupou muito limão. Fazer o quê? Cada um luta com as armas que tem.” A fila andava em um ritmo normal e Lucinha procurava atender a todos com um sorriso. Muitos clientes a cumprimentavam e perguntavam se estava tudo bem, e isso fazia com que se sentisse em casa. Gostava de desempenhar bem a sua função e ainda se sentia motivada depois de mais de dez anos de profissão, apesar de ter que aguentar todos os dias as duas bruacas que trabalhavam ao seu lado. Tinha consciência de não ser uma santa, e nem pretendia isso de ninguém, mas aquelas duas eram um capricho da natureza. Mas estava conformada. Sabia que não dava para ter tudo na vida e já estava bem satisfeita com o que havia recebido. Ultimamente sentia-se muito feliz. Há algum tempo vinha saindo com um rapaz que realmente havia conquistado seu coração. Ainda não haviam marcado o casamento, mas ela sentia que daquela vez daria certo. Sonhava em ter uma família, era tudo o que ela mais queria. Estava desconfiada de que era algo que poderia acontecer antes do previsto. Tinha a sensação de que seu corpo estava diferente nas últimas semanas. Poderia estar grávida. Seria bom demais se fosse verdade. Sabia que se as bruacas descobrissem, teria um problema. Fariam de tudo para atormentá-la. “São umas hienas esfomeadas que não podem sentir cheiro de carne, senão ficam ainda mais loucas. E se o assunto envolver bebês, não sei o que aquelas recalcadas serão capazes de inventar. Vou ficar bem quietinha.” Lucinha procurava ser discreta o mais possível em relação à sua vida pessoal. Sabia que existiam leis que garantiam o seu direito de separar o trabalho da sua vida privada, mas, na prática, muitas vezes era difícil estabelecer uma linha divisória bem precisa. Após alguns anos tentando contornar a situação, pensou em enquadrar o comportamento das bruacas como Bullying e fazer uma reclamação formal, mas chegou à conclusão de que seria muito difícil fazer isso. Elas não gritavam ou gesticulavam exageradamente, não faziam nada por escrito, era tudo subterrâneo, contido, silencioso, olhares de desprezo, pequenos gestos, tempos prolongados demais para dar respostas, murmúrios incompreensíveis, críticas veladas, caras e bocas. Não dava para acusá-las por serem chatas embora sentisse que o comportamento delas denotava muito mais do que uma simples antipatia. “São agressivas, mas não o bastante para exigir que sejam afastadas de mim. Se quero manter meu emprego, devo continuar a me relacionar com elas todos os dias durante seis horas por dia e tentar não enlouquecer”. Assim, Lucinha resolveu procurar um tratamento. Começou com a naturopatia. Tomou Florais de Bach por algum tempo, fez algumas sessões de Reiki, mas nada disso foi suficiente para eliminar os sintomas de ansiedade que se intensificavam. Não conseguia dormir bem. Procurou atendimento psicológico. Tomou antiansiolíticos. Fez três anos de psicoterapia. Acabou descobrindo uma série de coisas que não imaginava que estivessem guardadas dentro de si e que a tornavam ainda mais vulnerável a comportamentos agressivos. Passou por um processo de fortalecimento, mas, de certo modo, continuou a ser a mesma Lucinha de sempre. Nunca quis se moldar ao padrão de comportamento que as suas colegas estabeleciam no ambiente de trabalho, não valia a pena. Tinha certeza de que se continuasse a fazer o que acreditava ser o melhor que podia, um dia as coisas iriam resolver-se de alguma maneira. Agora, estava vivendo um momento muito bom da sua vida e acreditava que era fruto de todos os esforços que vinha fazendo para enfrentar seus problemas sem ter que deixar de ser a pessoa que acreditava ser realmente.
     No meio da tarde, o gerente foi até Lucinha e pediu discretamente para que ela passasse no seu escritório no final do expediente. Clotilde lançou um olhar indagador a Regiane que arcou ligeiramente os ombros para mostrar que não tinha nem ideia do que estava acontecendo. Mas tinha, e como. As três prolongaram ao máximo a permanência na agência. Lucinha estava esperando que as outras duas fossem embora e elas ficaram enrolando para estarem ali quando ela fosse falar com o gerente. Ele não trabalhava em uma sala completamente isolada. Separando os ambientes havia apenas uma parede baixa de vidro. Houve um momento em que Lucinha olhou rapidamente para o lado e teve a impressão de que Regiane havia desviado o olhar imediatamente, mas continuou sorrindo de modo enigmático, como uma Monalisa que ninguém teria prazer em pintar. Sentiu os sintomas da ansiedade chegarem a galope. Algo lhe dizia que a bruaca número um estava aprontando alguma coisa pesada dessa vez. O gerente cansou de esperar e foi até os guichês do caixa. Dispensou as bisbilhoteiras e chamou Lucinha para conversar.
     Regiane manteve o ar de curiosidade e inocência até sair da agência e ver que Clotilde já estava bem distante. Foi para casa caminhando e não conseguia parar de rir. Detestava o gerente e toda a sua família. Desde a chegada dele na agência ela desaprovara terminantemente a sua arrogância. Dava-se ares de pessoa refinada. Quando se dirigia a ela, fazia questão de demonstrar que a considerava uma caipira sem nenhuma classe. A sua mulher era uma perua do pior tipo; nas poucas vezes que a encontrou pôde perceber claramente que era uma pessoinha detestável. “Que idiotas esses almofadinhas metidos a besta, não têm ideia da pessoa com quem estão lidando.” Foi então que um dia teve uma brilhante ideia enquanto olhava desinteressadamente para o lado e viu a “Lucinha Come Quieta” balançando maliciosamente as madeixas encaracoladas e sedosas de um lado para o outro. ”Desculpe-me,” pensou consigo mesma, “mas uma pessoa que cultiva uma cabeleira vermelha desse tamanho está querendo chamar mais a atenção do que um caminhão de bombeiro em dia de incêndio. Só falta ela gritar: fogo, fogo, venham todos apagar meu fogo!” Olhou para o fundo da sala e reparou que o gerente tinha o costume de pendurar o seu ridículo paletó em um dos ganchos de pendurar casacos colocados em uma parede que ficava de frente para o “aquário” – era assim que Regiane chamava o escritório do gerente. Quase ninguém usava aqueles ganchos, mas o gerente não perdia nenhuma oportunidade para demonstrar quanto era refinado e deixava lá pendurado para todo mundo apreciar o seu antiquado paletó italiano. Não foi difícil imaginar um plano. Como era bom relembrar e saborear cada detalhe. Sem perceber, já havia chegado em casa. Abriu o portão e a porta da frente. Lá dentro não havia ninguém. Seu marido nunca estava em casa. Certamente estaria bebendo no bar. Ela passou pela sala escura e foi direto para o quarto. Abriu o guarda-roupa e pegou uma peruca ruiva cheia de cachos. Colocou a peruca na cabeça e balançou lentamente a cabeça sentindo os movimentos sensuais daqueles fios de fogo. Imaginou que tinha olhos verdes e que seu corpo era carnudo e cheio de curvas. Ficou ainda mais satisfeita quando pensou na cara que a mulher do gerente devia fazer quando via, um dia atrás do outro, o seu querido maridinho chegar em casa com fios de cabelo ruivos pendurados na lapela. Conseguia ver o seu rosto contorcido de horror e essa imagem fez com que ondas de prazer percorressem e fizessem tremer o seu corpo macilento. Imaginou que a insuportável mulher do gerente pudesse escutá-la enquanto sussurrava triunfante: “esses cabelos são meus, sua vaca, são meus lindos cabelos ruivos. O seu marido prefere as ruivas”.