domingo, 3 de setembro de 2017

A Soberba

(capítulo extraído do livro de contos "Não julgarás - Valeriana e outras sete", lançado pelo KDP em fevereiro de 2016)

Soberba: palavra que provém do latim superbia. Pecado capital definido comumente como a “estima excessiva da própria pessoa”. É também identificado como o desejo destorcido de grandeza. Gera vaidade, orgulho, arrogância, ambição, presunção, vanglória, gabolice, hipocrisia, ostentação, prepotência, desobediência, egocentrismo. Sinônimo: autoimagofobia: (auto + imagem, do lat. imago + -fobia). É um transtorno psicológico provocado por um desequilíbrio no processo de formação e propagação da própria imagem desencadeado por um medo patológico de não ser aceito em um determinado meio devido a uma supervalorização desse meio, e de sua hostilidade, e a uma desvalorização da sua identidade mais profunda. Pessoas que sofrem deste transtorno dedicam grande parte da própria energia à criação de artifícios que, segundo a visão distorcida que têm de si mesmas e dos seus semelhantes, são o único modo para conseguirem ser merecedoras de estima e admiração. No estágio mais agudo da doença, ocorre uma ruptura total entre o indivíduo e a imagem que constrói de si mesmo e isso faz com que fique extremamente suscetível a qualquer tipo de manipulação. Em acepção vulgar, autoimagofobia é designativo de um comportamento caracterizado pela mania de se envaidecer por meio da exaltação das próprias qualidades, muitas vezes imaginárias, gabar-se por pertencer a uma linhagem ilustre, nutrir sentimentos de superioridade em relação às outras pessoas. Manifesta-se também através da exposição ostensiva da própria humildade e estoicismo à espera de reconhecimento da sua superioridade moral. É elemento fundamental para a afirmação de um grupo como superior aos demais, dando origem a diversas ramificações comportamentais: nacionalismo xenófobo, todos os tipos de racismo, elitismo, corporativismo e doutrina de povos eleitos. Conforme a interpretação cristã, este vício é capaz de destruir todas as virtudes, pois denota a intenção de o indivíduo ser superior ao próprio Deus, criador de tudo, constituindo-se, em muitos casos, o ponto fraco do virtuoso. Os indivíduos acometidos por esta enfermidade menosprezam os sentimentos das pessoas e têm grandes dificuldades em estabelecer relações pessoais sólidas, embasadas em princípios que não envolvam práticas de coerção. Algumas metodologias formativas adotadas em âmbito corporativo valorizam a manifestação mais ou menos moderada deste comportamento, pois a ausência total dos sintomas característicos deste distúrbio é muitas vezes confundida com falta de autoconfiança e indica capacidade reduzida de utilizar todos os meios à disposição, até mesmo os mais inescrupulosos, para alcançar metas preestabelecidas. Em marketing, constitui matéria de estudos, pois é cientificamente comprovado que técnicas de promoção que empregam um fluxo abundante e repetitivo de imagens de um determinado produto, elaboradas conforme uma lógica específica e nem sempre fiéis à realidade, são eficazes na construção de opiniões positivas a respeito desse mesmo produto. Nota etimológica: a abundância de significados ligada à origem latina da palavra imagem dá margem a digressões interpretativas capazes de influir na construção da relação entre o indivíduo e a ideia de indivíduo. Do latim imago obtêm-se os seguintes significados: imagem, figura, retrato, fantasma, espectro, sombra, espírito dos mortos, ideia, conceito, representação mental, sonho, visão, aparição, aparência, aspecto, imagem ilusória, recordação, eco, reflexo de um espelho, semelhança, comparação, alegoria, fábula, alucinação, descrição. Antídoto ou virtude: humildade.

...

As folhas das árvores não davam muito espaço para a luz passar. Taísa não sabia distinguir muito bem se ali a mata era realmente mais fechada ou se estava escurecendo muito depressa. “Maldita hora em que eu aceitei o convite de uma amiga de um amigo do meu namorado” pensou ela enquanto girava em todas as direções tentando identificar para que lado o sol estava se pondo. Achava que a garota era simpática, mas nem a conhecia direito. Era uma como tantas que descem de vez em quando para o litoral e acham que já são do local porque os pais compraram um apartamento na praia quando eram crianças. “Como é que eu não percebi que isso não ia dar certo?” Taísa havia nascido e crescido naquela cidade à beira-mar rodeada pela majestosa Mata Atlântica. Vinha de uma família de pescadores e era possível que seus antepassados morassem ali desde muito antes que o país fosse descoberto e invadido por aquele pessoal ganancioso que veio do outro lado do oceano e tomou posse de tudo, sem pedir licença. Sempre achou que ela e toda aquela natureza eram uma coisa só. Havia aprendido que com respeito as coisas poderiam seguir o seu rumo harmoniosamente. Mas algo tinha dado errado.
Ela estava tranquila na sua casa curtindo sua manhã de folga quando a Márcia apareceu no seu portão toda sorridente e foi logo dizendo:
“Até que enfim encontrei você! Preciso recolher algumas sementes na mata, você não quer vir comigo?”
Taísa estranhou a presença dela ali, mas achou que não era uma surpresa ruim. Queria mesmo fazer alguma coisa diferente.
“Onde você está pensando em ir?”
“Pensei em pegar aquela trilha do Poção e subir até a parte mais alta do morro. A gente podia aproveitar também para dar um mergulho. Eu não queira ir sozinha, você conhece bem tudo isso aqui, não conhece?”
“Conheço, mas...”
“Mas o quê? Que desculpa você vai dar para ficar em casa sozinha em um dia de folga lindo como esse? A gente não vai muito longe.”
“Tudo bem, espere só um pouco porque eu tenho que fechar a casa.”
Taísa perguntou o que a Márcia estava levando para fazer a trilha e descobriu que ela só tinha uma bolsinha minúscula onde não cabia quase nada. Pegou uma mochila e começou a colocar tudo aquilo que era necessário para uma excursão daquele tipo. Quando terminou de preparar a bagagem, Márcia perguntou se podia guardar a bolsinha dentro da mochila, assim as duas poderiam revezar-se para carregá-la durante a caminhada. Taísa aceitou sem hesitar. Estava pensando em outra coisa. Como morava com a mãe que havia saído muito cedo para trabalhar, pensou em escrever um bilhete para ela dizendo para não se preocupar porque voltaria logo, mas não achou nenhuma caneta ali por perto e acabou não escrevendo nada. Não pretendia voltar muito tarde. Pensou em avisar seu namorado, mas àquela hora ele também estava trabalhando e era melhor não atrapalhar. Ligaria para ele quando estivesse de volta. O sol já estava alto em um dia que estava ficando cada vez mais quente e abafado, como era típico daquela época do ano. Havia aproveitado as primeiras horas da manhã para lavar e estender uma porção de roupas que se tinham acumulado durante o corre-corre da semana. Ela e a mãe dividiam os afazeres domésticos e quando tinha um tempo livre dedicava-se um pouco a isso. A mãe de Taísa trabalhava fazendo faxina em várias casas das redondezas e no verão o trabalho aumentava graças ao movimento constante de turistas; ela não rejeitava nenhuma oportunidade que pudesse trazer um pouco mais de dinheiro para a família, pois da prosperidade daquele breve período dependia a tranquilidade dos meses de vacas magras, que eram muitos. Há algum tempo Taísa havia arranjado um emprego como atendente em uma farmácia no centro da cidade e frequentava uma faculdade noturna de ciências contábeis. Sua mãe, que nunca mediu esforços para não deixar faltar nada à filha, não coube em si de felicidade quando a filha anunciou que pretendia continuar a estudar. Seria a primeira pessoa na família a ter um diploma universitário. Se fosse necessário, trabalharia de dia e de noite para ajudar a filha. O pai de Taísa abandonou as duas quando a menina ainda nem era capaz de pronunciar o seu nome. Moravam em uma casa de três cômodos geminada com a casa do seu avô, que ainda conservava no quintal muitas redes de pesca e passava horas a remendá-las, embora tivesse parado de pescar há muito tempo. O mar não ficava muito distante da casa deles e a trilha do Poção começava ali perto, no pé do morro.
Márcia adorava a natureza. Desde pequena vinha para a casa da praia passar as férias. Toda aquela exuberância da mata nativa exercia sobre ela um efeito quase mágico. Parecia ser um mundo mítico, intocado, como se fosse uma testemunha de um tempo em que a natureza não tinha que pedir licença ao homem para existir. Toda essa fascinação foi determinante para a escolha da sua carreira. Havia concluído o sexto semestre da faculdade de biologia e pretendia se especializar em técnicas de modificação genética para adaptar plantas da mata ao cultivo em outros ambientes a fim de contribuir para a diminuição do extrativismo predatório. Para ela a proteção da natureza era um assunto muito sério. Ajudava economicamente várias associações que defendiam o meio ambiente não só em território nacional, mas em todas as partes do mundo. Participava de tudo o que estava ao seu alcance para defender um modo de vida mais natural. Era vegetariana, usava roupas e sapatos produzidos de modo comprovadamente ético, evitava ao máximo comprar coisas feitas para durarem pouco. Quando realmente tinha que comprar algo, fazia questão de escolher só artigos de alta qualidade. Morava com os pais em uma metrópole caótica na qual a palavra equilíbrio andava muito em desuso. Tudo ali era exagerado: a quantidade de pessoas, o tráfego, a poluição, a pressa, o barulho, a agitação, a impaciência, a ganância, a violência, o medo, a indiferença, a injustiça, a feiura, a altura dos prédios, o lixo. Tinha que fumar muita maconha para aguentar. Achava uma grande idiotice continuarem a manter a proibição de plantar a erva em casa. Toda vez que seu fumo acabava era obrigada a comprar de pessoas com as quais detestava se relacionar. No final das contas, eram todos coniventes com a bandidagem, inclusive ela. Estava tudo errado, tudo. Mas, não adiantava ficar reclamando. Ia vivendo a vida do modo que podia, por mais contraditória que fosse. Quando tudo começava a ficar irritante demais, pegava o seu carro e descia a serra. À medida que o ar carregado de oxigênio e maresia começava a entrar no seu corpo, a sua alma ia se expandindo. Era uma sensação incrível. Às vezes descia a serra só para passar um fim de semana em meio à natureza, mesmo durante o inverno. Durante o tempo em que ficava por lá, procurava evitar lugares movimentados. Gostava de frequentar praias escondidas do grande público que, na maior parte das vezes, permaneciam assim por serem de difícil acesso. Para chegar até elas era preciso caminhar por trilhas que só pessoas do local conheciam. Tinha bons amigos ali. Era um pessoal tranquilo, que curtia as mesmas coisas e vivia na mesma sintonia que ela. Havia conhecido a Taísa e o seu namorado através de um amigo em comum que estudava com eles na única faculdade que havia na cidade. Achava estranho ver aquele pessoal tão legal tentando se especializar em uma matéria ligada a finanças, que, segundo ela, era um assunto que deveria ser completamente reformulado para que fosse possível reverter a situação de miséria e injustiça que vinha arruinando o mundo de forma cada vez mais agressiva. Era uma coisa que precisava ser feita, mas que parecia ser uma tarefa impossível. Quando ouvia entendidos do setor falando ficava impressionada com a segurança que transmitiam enquanto vomitavam um discurso que era a coisa mais surreal já produzida pela cultura humana. Não havia no mundo nada mais paralelo à vida do que o sistema financeiro. Paralelo no sentido mais restrito da palavra. Uma linha que corre paralelamente e que nunca encontra a outra, nem no infinito, mas que se aproxima ao ponto de quase se confundirem; a vida se deixa influenciar e se despedaça, o sistema financeiro consome a vida e segue adiante em direção ao vazio. Mas a sua geração não sabia fazer outra coisa além de sentir-se incomodada com as desgraças do mundo que herdou e deixar-se convencer da eficácia de novos métodos paliativos para fugir da realidade. No fundo, ninguém acreditava em mais nada. Até mesmo os seus amigos do litoral, que só seguiam aquele tipo de estrada porque achavam que não tinham outras opções. Muitos ali viviam do comércio, que era uma das poucas atividades que davam certo em um local turístico como aquele. Quando conheceu a Taísa, gostou dela. Desde que conversaram pela primeira vez achou que era uma garota interessante. Naquela manhã, Márcia havia acordado com vontade de conhecer um lugar diferente. Não estava a fim de água salgada. Queria mergulhar em água doce. Havia ouvido falar de uma piscina natural que o pessoal chamava de Poção. O tempo parecia perfeito. Resolveu passar na farmácia para combinar alguma coisa com a nova amiga e ficou sabendo que era seu dia de folga. Lá, souberam informar mais ou menos onde ela morava. Era um antigo bairro de pescadores que ficava a alguns quilômetros do centro da cidade. Foi até lá, perguntou por ela a alguns moradores e acabou encontrando a sua casa. Ela concordou com a sua ideia. Colocaram-se a caminho.
Havia chovido na tarde anterior e a trilha estava cheia de poças lamacentas, para a alegria da grande variedade mosquitos que as atacavam com voracidade. Pararam para passar mais uma camada de repelente nos braços e nas pernas. Na beira da estrada havia muitas goiabeiras e elas viram que algumas tinham frutas maduras. Comeram até ficarem cheias. Tudo parecia ter um sabor delicioso, até os bichos das goiabas.
A primeira parte da estrada era larga e não muito íngreme. Teriam que caminhar alguns quilômetros durante os quais o caminho se bifurcava várias vezes e era preciso saber muito bem qual direção tomar. Deviam continuar assim até chegarem a uma porteira. Teriam que atravessá-la e pegar uma trilha mais estreita e sinuosa que também se bifurcava em vários pontos ao longo do caminho. Taísa já havia percorrido aquele caminho dezenas de vezes. Na adolescência era uma das suas metas preferidas. Na maior parte das vezes ela ia com um grupo de amigos aventureiros. No final daquela fase namorou um rapaz que morava perto da sua casa e eles passaram a ir para lá sozinhos. Tomavam banho de cachoeira, fumavam um pouco, tomavam sol deitados nas pedras e namoravam preguiçosamente para depois mergulharem de novo na água gelada e transparente. Que período bom foi aquele. Só tinha que pensar em ir à escola, onde ninguém se importava realmente se ela estudava ou não, e curtir a vida. O mundo era uma coisa distante, tão real quanto um filme que por acaso se assiste à tarde na televisão, mas que não é muito interessante. Toda aquela felicidade ingênua acabou de repente quando seu namorado foi encontrado assassinado aos vinte e um anos em uma vala no próprio bairro onde moravam. Foi um choque. Disseram que foi um acerto de contas entre traficantes. Embora desconfiasse de alguma coisa, Taísa nunca havia perguntado quem eram os caras que às vezes encontravam na rua e que seu namorado cumprimentava com respeito e com um certo temor dissimulado e nem como ele estava fazendo nos últimos tempos para ter sempre à disposição dinheiro, fumo e tantas outras pequenas coisas. Sabia que ele não estava trabalhando. Ele sempre falava que não valia a pena ser escravo como os otários que se matavam de trabalhar para depois serem humilhados. Dizia “pobre não vale nada aí fora. Nós não vamos desperdiçar a nossa vida fazendo coisas sem sentido, vamos aproveitar ao máximo enquanto podemos. Eu estou dando um jeito nisso. Logo vou fazer uma casinha para nós aqui no morro e vamos deixar que o mundo se foda com suas regras para aprisionar as pessoas em uma vida infeliz.” Depois do que aconteceu, a vida de Taísa não pôde mais ser a mesma. Sua mãe não sabia como consolá-la; sentia-se impotente, magoada e, ao mesmo tempo responsável pelo destino que a filha poderia ter tido. Não conseguia tirar da cabeça a imagem da filha jogada naquela valeta fétida, violada e sem vida. Repetia para ela “nós somos pessoas honestas, temos os nossos problemas, mas não fazemos mal a ninguém. Você queria mesmo ser mulher de bandido? Era isso o que você queria? Depois de tudo o que eu fiz para dar a você uma vida digna?” No início Taísa revoltou-se contra tudo. Queria morrer. Odiava todos. Se pudesse, explodiria em pleno culto a igreja que a sua mãe frequentava, com toda aquela gente dentro que não entendia nada de nada e não parava de repetir insanidades como se tivessem entendido tudo. Estava enlouquecendo de tanto ouvir palavras desprovidas de qualquer compreensão real daquilo que se passava dentro dela e ver as expressões de satisfação daquelas pessoas que se imaginavam preenchidas por algum tipo de poder divino e, ao mesmo tempo, expulsavam centelhas de idiotia através de olhos dominados por uma altivez alucinada que era uma espécie de revanche inútil contra a ignorância massacrante que não parava de comprimir a mente delas. Estava cansada daquilo. Ninguém tinha autoridade suficiente para ajustar as coisas, ninguém. Se aquela era a justiça de deus, ele só poderia ser um grande filho da puta. O que lhe restava para viver dali para frente? Nada. Pensou qual seria o modo melhor de acabar de uma vez com toda aquela palhaçada. Cogitou várias possibilidades. Rejeitou a maior parte delas, porque as formas que conhecia de automutilação lhe causavam uma inexplicável repulsa. Por mais que detestasse sua vida não tinha coragem de atentar diretamente contra o próprio corpo. Toda vez que tentava, sentia-se derrotada pela própria covardia. Uma vez, sozinha em casa passou em revista todas as lâminas que tinha à disposição. Achou uma faca grande que sua mãe havia afiado recentemente e que usava para limpar os peixes. Tentou imaginar quantos peixes haviam sido cortados com ela sem que nenhum drama se desencadeasse. Reconstruiu mentalmente o movimento suave da lâmina bem afiada entrando na carne da barriga, as vísceras sendo retiradas com rapidez e jogadas no lixo, os pequenos cortes feitos na pele para que o tempero pudesse penetrar. Não seria tão difícil cortar um pouco de carne com aquela faca. Mas viu também a sua mãe temperando o peixe. Viu como ela amassava os dentes de alho descascados e as ervas perfumadas e misturava tudo com o sal formando uma pasta de cheiro forte. Viu sua mão passando o tempero no peixe e espremendo limão sobre ele. Aquilo era um alimento, não um símbolo de morte apesar de o peixe estar morto. Nunca conseguiu entender exatamente o que aconteceu naquele dia, mas a partir dele começou a se sentir menos atraída pela ideia de acabar com a própria vida. A raiva foi passando lentamente como se fosse uma estação do ano. De repente ela estava de novo sem saber muito bem o que fazer, mas com vontade de fazer alguma coisa.
As duas caminhavam sem pressa e Márcia parava de vez em quando para recolher algumas sementes. Já estavam bem embrenhadas na mata quando ela tirou a sua bolsinha da mochila que no momento Taísa carregava e pegou um baseado enrolado com capricho e um isqueiro. Acendeu-o com naturalidade, deu umas tragadas e ofereceu para Taísa que recusou.
“Não fumo, parei já faz tempo”.
Márcia ficou um pouco surpresa e perguntou:
“Eu não sabia, você se importa se eu fumar?”
Taísa respondeu que não e fechou-se em si mesma. Andaram por um bom trecho em silêncio até que Márcia resolveu interrompê-lo para entender melhor o que estava se passando. Achou que talvez tivesse feito ou falado alguma coisa que tivesse chateado a companheira. Voltou-se para ela e perguntou:
“Está tudo bem? Ficou calada de repente. Falei alguma coisa que você não gostou?”
“Não se preocupe, não tem nada a ver com você, é coisa minha. Daqui a pouco passa.”
Continuaram caminhando, cada uma entretida com seus próprios pensamentos. Taísa ficou um tempo refletindo se valia a pena ou não falar sobre o que estava sentindo com aquela garota que não sabia absolutamente nada sobre a sua vida, mas que parecia já estar bastante satisfeita com a ideia superficial que havia construído a respeito dela. Parecia que não lhe interessasse ir muito além. Então, preferiu não mencionar nada a respeito das sensações estranhas que a invadiam naquele momento. Já havia aprendido a duras penas que na maior parte dos casos era uma grande perda de tempo falar sobre coisas pessoais com quem ela não conhecia muito bem. Decepcionou-se com muita gente que no início tinha pinta de ser bacana, bem resolvida, sensível, que parecia gostar das pessoas e das coisas simples da vida, mas que, na verdade, não era nada disso. Na hora “H” esses sujeitinhos agiam como se tivessem nascido com um bilhete de primeira classe na mão, como se garantir o melhor lugar para si mesmos fosse a única coisa importante no mundo. Só se interessavam realmente por aquilo que pudesse representar uma vantagem para eles, os outros que se ferrassem. Não estavam nem aí. O mundo podia estar desmoronando ao redor, mas se ficassem ilesos, tudo bem. Por trás da aparência legal, eram uns tremendos chatos. E esse defeito era muito comum no pessoal “alternativo” cheio de grana que vinha passar um tempo na sua cidade ou decidia instalar-se definitivamente em uma casa estilosa no meio do mato. Mas analisando bem as coisas, tinha que admitir que esse modo de agir não dependia apenas da classe social. Conhecia muito pobre que também era daquele jeito, mesmo não tendo quase nada na vida. Ela não sabia dizer qual tipo era o mais ridículo. Havia também a turminha dos exibicionistas, para com os quais não tinha a menor paciência, mas Taísa implicava realmente com aqueles que competiam para ver quem conseguia ser o mais heroicamente fodido na vida, que disputavam para ver quem resistia melhor às desgraças que eram quase tão frequentes no seu cotidiano quanto respirar. Porém, considerava que os perigosos de verdade - porque sempre acabavam arruinando seriamente a vida dos outros - eram os que se organizavam em grupos e se consideravam eleitos para fazer algo muito especial. Na maioria das vezes, a coisa que eles tinham a fazer era tão maravilhosamente especial que nem dava para entender o que era. Ninguém entendia direito, mas isso só aumentava a certeza de que era algo muito importante. Uma espécie de delírio coletivo. Insuflar o lado misterioso das coisas é um modo astuto para agregar um valor acessório, e intangível, a coisas que deveriam ser regidas pelo simples bom senso. Religiões, doutrinas, regimes e utopias justificam-se através da existência do lado oculto que envolve todas as coisas, exilando do reino da poesia aquilo que não é capaz de manter a própria integridade em nenhum outro lugar. Taísa lembrava-se de ter lido algo parecido recentemente, mas não se lembrava de onde. Na verdade, o importante era acreditar ou simplesmente manipular a coisa para fazer com que os outros acreditassem nela, pois, em sociedade, uma farsa que se finge junto é realidade. Desde que o mundo era mundo vinha sendo povoado por esse tipo de gente e iria continuar daquela maneira ainda por muito, muito tempo, até que a raça humana sofresse alguma mutação genética que extirpasse aquela necessidade doentia de afirmação. Taísa sabia que ela mesma não estava livre daquele defeito de fabricação, mas procurava manter-se dentro de uma média aceitável. Não havia nada a fazer a respeito. Em relação à sua nova amiga, ainda não sabia ao certo em que categoria encaixá-la, mas sabia que devia ser precavida em relação a ela, pois aquela atitude de colocar fumo na sua mochila sem avisar era uma demonstração de que não se importava muito com a opinião de quem estava ao seu lado. Era sempre a mesma história. Não podia abaixar a guarda para não deixar que nenhum espertinho montasse nas suas costas. “Se aprontar mais alguma, vou dar um belo chacoalhão nessa garota, ela que não brinque comigo” disse a si mesma. Mas, na verdade, aquelas coisas corriqueiras não eram o motivo da sua perturbação. O que estava acontecendo era que naquele momento algumas recordações estavam vindo à tona com uma força inesperada. Talvez tivesse sido por causa daquele cheiro forte que saía do baseado combinado a um cenário sugestivo que ela não via há muito tempo. Era a primeira vez que voltava lá depois de tudo o que havia acontecido. Passaram-se alguns anos desde então e quando finalmente conseguiu superar a fase mais difícil resolveu colocar uma pedra sobre o passado. Enterrou toda a dor e também tudo o que havia sonhado naquele período. Toneladas de sonhos e ideias que não cabiam mais na sua vida. Sentiu-se incomodada quando, por alguns instantes, teve a sensação de que mais alguém caminhava ao seu lado ali na estrada. Seu coração acelerou e a sua pele ficou toda arrepiada. Tentou dissipar aquela presença apertando mais o passo.
Aos poucos o clima entre as duas foi se descontraindo novamente. Pararam várias vezes para pegar mais sementes e falaram sobre muitas coisas sem importância. Alcançaram a porteira e entraram na trilha mais estreita. A partir daquele ponto, estavam dentro de uma propriedade privada, mas não havia ninguém para tomar conta dela e podiam seguir tranquilas. Era a primeira vez que Taísa subia ali sem ter ao seu lado mais alguém que também soubesse o caminho, mas tinha certeza de que se lembrava bem. A subida era íngreme e a respiração acelerada impedia que falassem muito. Já conseguiam ouvir ao longe o barulho de vários cursos d’água que desciam a ribanceira com muita força. Em meio à vegetação era possível ver algumas espécies vegetais diferentes daquelas mais comuns presentes no pé do morro. Dava para perceber que era um lugar bem preservado. Estavam subindo um trecho particularmente acidentado e cheio de pedras quando Márcia se maravilhou ao avistar a uma certa distância da trilha uma árvore enorme que achou que fosse uma espécie ameaçada de extinção. A partir daquele ponto a trilha se desmembrava em uma série de pequenas passagens mais ou menos estreitas em meio a formações rochosas de vários tamanhos. Taísa avisou a companheira que era melhor ela não se afastar sozinha da trilha, pois ali era fácil de se confundir e pegar uma direção errada. Só que quando falou isso, ela mesma já não tinha tanta certeza de que havia escolhido o caminho certo. Não conseguia se lembrar muito bem, mas parecia que das outras vezes não havia passado por um lugar tão difícil de atravessar. Poderia ser apenas uma impressão, pois depois de alguns anos era de se esperar que a paisagem estivesse um pouco diferente. Talvez a trilha que conhecia tivesse se fechado naquele ponto e agora o caminho fosse aquele. Resolveu não falar nada para não alarmar a companheira. Márcia não deu muita importância ao que a outra estava falando. Sabia que às vezes o pessoal do local exagerava tratando-a como se não soubesse se comportar em uma situação como aquela. Há anos fazia trilhas em lugares isolados e não era nenhuma ignorante no assunto. Preferiu fazer de conta que não havia ouvido a advertência. Não adiantava perder tempo tentando explicar que ter encontrado aquela espécie rara era algo tão fantástico que seria uma idiotice desperdiçar a oportunidade de pegar algumas sementes. Tinha ido ali para isso. Quando já havia dado alguns passos destemidos e um pouco desequilibrados em direção à mata fechada, voltou-se para trás e disse simplesmente que voltaria logo. Taísa, ao ouvir aquilo, resolveu sentar-se sobre uma pedra e esperar. Achou que a Márcia era já era bem grandinha para saber o que podia ou não fazer. “Afinal de contas, não sou a sua babá e nem o seu guia turístico particular. Ela que vá sozinha” pensou. De repente, lembrou-se de um detalhe e falou bem alto para que a Márcia pudesse ouvir:
“Espere! Volte aqui! Deixe a mochila comigo!” e ouviu uma voz distante responder:
“Não precisa se preocupar, eu já volto!”

Taísa estava irritada.  Mal podia esperar para dar um mergulho na água gelada, pois o calor era forte e os mosquitos pareciam querer arrancar pedaços do seu corpo. Era um grande alívio quando uma brisa fresca soprava de vez em quando. Precisava passar mais repelente e estava sem a mochila. Queria saber que horas eram, mas o seu celular também havia ficado lá dentro. Estava começando a reavaliar seus planos, pois quando saíram da sua casa a manhã já estava pela metade e haviam parado muitas vezes durante o percurso para recolher as malditas sementes da Márcia. Ainda tinham um bom pedaço de estrada pela frente e depois o retorno. Talvez fosse melhor desistir de chegar ao Poção e voltar para casa. Não podia nem imaginar a ideia de percorrer aquela trilha no escuro. Após alguns minutos começou a ficar impaciente. Levantou-se e chamou bem alto a companheira pelo nome. Ninguém respondeu. A impaciência cedeu lugar à preocupação. Não podia ficar ali parada, mas, se saísse, sabia que correria o risco de se perder ou de se desencontrarem. Gritou com mais força o seu nome e continuou a não receber resposta. Resolveu caminhar em direção à árvore que havia chamado a atenção de Márcia. Procurou por uma árvore bem grande, mas não identificou nenhuma que fosse particularmente diferente das outras. Não conseguia distinguir muito bem a diferença entre elas. A um certo ponto parou desanimada perguntando-se onde aquela irresponsável tinha ido parar. Se fosse mais para longe, o risco de se perder aumentaria. Tinha que decidir rapidamente o que fazer. Não era culpa dela se a outra era uma desvairada que só pensava em si mesma. Se as duas se perdessem, quem as acharia se ninguém sabia para onde tinham ido? Estava voltando lentamente na direção das pedras quando uma ideia passou pela sua mente e paralisou seus movimentos. “Ela pode ter desmaiado. Escorregou na ribanceira e bateu a cabeça. Se ficar ali sozinha pode morrer. Preciso encontrá-la. Se eu achar a mochila posso tentar chamar alguém pelo celular.” Deu meia volta e tentou se orientar. Caminhou por entre as árvores às quais muitas vezes teve que se agarrar para não deslizar ribanceira abaixo. Depois de um bom tempo sem encontrar sinais da passagem da Márcia, atingiu um ponto menos íngreme e percebeu que já havia passado por ali. Parou, muito confusa. Estava exausta e sentia muita sede. Perdeu a conta das horas. Olhava para cima para tentar se orientar. O céu parecia ter escurecido de repente e o vento soprava forte. Uma tempestade estava se formando. Podia ouvir o som dos trovões que rugiam cada vez mais próximos. Sentiu o pânico dominá-la diante da possibilidade de passar a noite sozinha naquele lugar. Pensou nos seus medos e nos fantasmas que teria que enfrentar. Em um primeiro momento, sentiu uma raiva feroz de Márcia por tê-la colocado naquela situação. Talvez estivesse morta. Depois sentiu raiva de si mesma. Deveria concentrar-se para sair viva dali. Só queria entender uma coisa. Perguntava-se como fora cair em uma armadilha como aquela. 

terça-feira, 25 de abril de 2017

A Avareza



    Avareza: palavra que provém do latim avaritia. Pecado capital definido comumente como o “amor desregrado pelo dinheiro e bens materiais”. Segundo algumas tradições, as desordens provocadas pelos excessos relacionados a esse pecado não se restringem ao aspecto material, sendo que as suas manifestações em âmbito espiritual, material e mental são ainda mais sutis e perniciosas. Gera mentira, traição, perjúrio, fraude, inquietude, violência, ausência de empatia, mesquinhez, ansiedade. Há evidências de que este vício tende a se intensificar com a idade. Sinônimo: supermaciçose: em acepção vulgar, o mesmo que ganância, cobiça, sovinice (supermaciço - em astrofísica, adjetivo que qualifica um buraco negro com superconcentração de massa + sufixo -ose). Como termo próprio da linguagem médica, refere-se a uma perturbação psíquica caracterizada pelo desenvolvimento de comportamentos paranoicos cuja evolução manifesta-se em forma de compulsão por adquirir e conservar em seu poder ao longo da vida a maior quantidade possível de matéria ou valor equivalente, o que dá origem a um desequilibrado campo sócio-gravitacional que provoca uma dilatação anormal da sua capacidade de atrair e agregar mais matéria. Em jargão econômico, é designativo de transações financeiras vultosas que incrementam o patrimônio de grandes corporações internacionais, ampliando ainda mais a sua influência em âmbito geopolítico. Acumulação excessiva, pavor persecutório, desejo obsessivo de controle, poder, isolamento, psicopatia, pobreza. Antídoto ou virtude: generosidade, contentamento.

...

    A professora Leila já havia feito a chamada e estava escrevendo na lousa o tema que seria discutido na aula de religião e a classe fazia um barulho tremendo. “Que gentinha mal-educada” pensou. “Silêncio! Prestem atenção ao tema de hoje e escrevam no caderno!” e leu em voz alta o que havia escrito na lousa: “Ética e Cidadania: o Bom Cidadão.” Sentiu uma pontada aguda nas têmporas e sabia que aquele era um sinal de que a sua habitual dor de cabeça estava chegando para ficar. Dar aula daquela matéria em escolas públicas não era uma tarefa fácil. Tinha uma licenciatura em química, mas naquela região só conseguiu fazer algumas substituições que não eram suficientes para complementar o orçamento da família depois que ela e o marido resolveram fazer um financiamento para comprar um apartamento. Quando assinou os papéis do contrato percebeu que não havia adquirido uma casa: a casa era do banco e a dívida era sua. Optaram por aquela solução porque parecia ser a mais razoável. “Pagar aluguel é jogar dinheiro fora” dizia seu marido que já andava contrariado com o fato de não conseguir fazer nada com o dinheiro do seu duro trabalho além de apenas sobreviver. Uma vez ele se lamentou com uma gravidade no olhar que a deixou preocupada: “A gente precisa dar um sentido a tudo isso. Trabalhar por trabalhar sem conseguir comprar nada é muito desestimulante. Às vezes dá vontade de desistir de tudo.” Ela pensou em argumentar dizendo que não estavam apenas sobrevivendo, estavam tendo a oportunidade de viver uma vida juntos, tinham o privilégio de compartilhar amor, cumplicidade, amizade, intimidade e que isso era suficiente para ela seguir adiante sem hesitar, pois são coisas que não têm preço. Mas percebeu que ele a olharia como se estivesse assistindo a mais uma ridícula propaganda de cartão de crédito que enfatiza quanto as relações humanas são belas quando se tem dinheiro à disposição. Era ele quem arcava com grande parte das despesas do casal e estava descontente. Estava prestes a declarar a falência do casamento que vinham mantendo modestamente há três anos. Ele precisava de algo mais consistente. Alguma coisa que pudesse tocar com as próprias mãos, à qual pudesse atribuir um valor real. Não era pedir demais, era simplesmente encarar a realidade. Quem não tem ambição acaba ficando de mãos vazias e ninguém leva a sério. Vira piada. Todo mundo sabe disso. Nem é preciso participar de quinhentos mil cursos motivacionais na empresa em que trabalha para entender um conceito tão simples. O seu marido só estava querendo dizer que nem tudo em um casamento tinha que ser tratado com sentimentalismo ou pieguice. Tinham apenas que ser práticos. Tinham que comprar um apartamento. E assim foi. Quando ela ficou sabendo que a professora de religião daquela escola iria embora, acendeu-se uma luzinha na sua cabeça – que não tinha nada a ver com ter uma ideia genial ou algum tipo de iluminação espiritual. Informou-se sobre o que era necessário para ser admitida como uma professora de religião e descobriu que bastava ter uma licenciatura de qualquer coisa. Não havia nenhuma outra exigência. Não teria que fazer nenhum curso de formação. Nada que fosse complicar a sua vida. Foi sincera com a diretora dizendo que não era uma pessoa religiosa, era uma católica não praticante. A diretora disse que era até melhor que fosse assim, deu-lhe uma cópia das diretrizes que regulamentavam o ensino da matéria, disse que ela deveria ler as informações com atenção, mas que não precisava ficar preocupada, pois na prática tudo aquilo era bem mais simples do que parecia. Enfatizou que o importante era procurar seguir sempre uma linha laica, como previa a lei, e tranquilizou-a dizendo que havia muito material sobre o assunto disponível na internet. Ela deveria usar o bom senso, ser o mais imparcial possível ao abordar cada religião, evitando ser tendenciosa e discriminatória, pois isso poderia criar problemas com os pais dos alunos. “A gente precisa prestar atenção para não ofender ninguém porque já existem casos em que as escolas foram processadas por falarem mal da religião alheia. Tome cuidado com isso; o resto vai ser fácil.” Leila assumiu as aulas sem ter a menor ideia de como programá-las. Teria que ser rápida, pois podia contar apenas com o final de semana para organizar tudo. Recolheu o material que encontrou na internet, e viu que de fato não era tão abundante assim, pois a maioria dos programas que achou eram no mínimo tendenciosos. Se fosse considerar criteriosamente as diretrizes, nenhum deles serviria para ser aplicado em sala de aula. Sentiu-se ligeiramente apavorada. Pescou aqui e ali algumas ideias neutras - que quase não se encaixavam no tema de tão neutras que eram. Transitou entre textos de autoajuda e psicologia de salão. Recolheu algumas frases de personagens famosos. Leu alguns resumos de teses acadêmicas que conseguiam reduzir as grandes questões da humanidade a parágrafos telegráficos. Fez uma lista na qual procurou incluir do modo mais abrangente possível nomes e definições objetivas a respeito das religiões mais importantes praticadas no país. A lista acabou ficando muito extensa. “Puxa vida, quanta criatividade tem essa gente!” Tentou elaborar algumas perguntas que poderiam fazer com que os alunos participassem de uma discussão. Duvidou que aquele compêndio feito às pressas seria capaz de suscitar o interesse dos alunos. Decidiu que não deveria esquentar muito a cabeça, pois era óbvio que se os responsáveis realmente pretendessem alguma coisa daquelas aulas de religião, não teriam deixado que uma professora de química sem nenhuma experiência ficasse encarregada de elaborar o programa. “Se eu pudesse ensinar química seria tudo muito mais fácil, mas por que as coisas devem ser fáceis na nossa vida, não é mesmo?” Riu de si mesma porque estava prestes a responder à pergunta usando uma das frases prontas que havia anotado durante a sua inusitada incursão humanística pela rede. “Isso não vai servir para nada, ou melhor, só vai servir para eu pagar a prestação do próximo mês.” Na sala de aula, Leila viu que os alunos já haviam copiado o tema do dia escrito na lousa e olhavam curiosos para ela. Já se conheciam porque ela havia substituído recentemente a professora de ciências deles que se ausentou por uns dois meses para fazer um tratamento de saúde. “Agora, prestem atenção nas perguntas que vou fazer para vocês. Quem responder certo vai ganhar um ponto positivo. Alguém sabe dizer o que é ser um bom cidadão?”
    Uma menina levantou o braço indicando que queria falar. Em vez de responder, perguntou:
    “Professora, esta aula não é de religião? A gente não vai falar de Deus e do diabo? Eu sei o que é o diabo.”
   “Eu quero saber se alguém sabe responder à pergunta que eu fiz” retrucou Leila em tom de reprovação.
    “Mas, professora, – insistiu a aluna – a gente não ia falar de religião?”
    “Se você não sabe responder, fique quieta e não atrapalhe”.
    A menina encolheu-se na cadeira com uma expressão contrariada. 
    Três alunos levantaram a mão. Leila pensou que a coisa podia dar certo. Estavam participando. A maior parte dos alunos prestava atenção. Queriam saber onde aquilo ia dar. “Vamos lá.” Apontou para um menino que sentava no fundão e parecia ser maior que os outros. Ele era do tipo que não passa desapercebido pelos professores, estigmatizado na escola como aluno problemático, provinha de uma condição familiar ainda mais precária do que a maioria. Ela disse “pode responder” pensando que seria uma boa estratégia envolver na discussão também os alunos menos aplicados que formam o grupo dos apáticos ou dos bagunceiros. E ele respondeu:
    “Bom cidadão é uma cidade bem grande cheia de mulher gostosona.” A sala caiu na gargalhada.
    “Seu idiota, desgraçado, eu te mato!” Leila pensou, mas não falou. Bateu na mesa e berrou pedindo silêncio. Tinha que punir o aluno engraçadinho para não perder de vez o respeito da turma. Enquanto pensava no que fazer, a mesma menina de antes levantou o braço novamente e ficou de pé. Não estava rindo. Ela nem esperou receber autorização e começou logo a falar bem alto, quase gritando para que sua voz aguda conseguisse ser escutada em meio àquele pandemônio. Seus olhos denotavam uma certa histeria.
    “Professora, tá vendo? É isso que acontece quando a pessoa não invoca o poder do Nosso Senhor para afastar o diabo. Ele toma conta!!! Eu quis avisar e a senhora não deixou. Olha só o que ele fez! Agora vai ter que expulsar o diabo daqui!
    Leila pediu silêncio mais uma vez, concentrou-se para tirar de dentro de si a postura mais autoritária possível, que costumava ser bastante eficaz em situações daquele tipo, apontou o dedo para seus alunos enquanto falava com uma expressão ameaçadora:
“Você aí, sente-se imediatamente e pare de falar besteira. Não quero ouvir mais nenhuma palavra sobre o diabo. Estamos na escola, não em um manicômio. Sabe o que é um manicômio? É onde internam gente louca. Tome cuidado com o que você fala. Você aí no fundo, qual o seu nome? Vai receber um ponto negativo. Se quiser fazer gracinha, fique em casa torrando a paciência da sua mãe que pelo jeito não soube dar educação para você. Não venha para escola atrapalhar quem quer estudar e ser alguém na vida. Você sabe o que acaba acontecendo com quem não estuda, não sabe? Vira burro de carga ou vai pedir esmola, como muita gente por aí que você conhece bem.
A encenação pareceu surtir o efeito desejado. Silêncio. Dois alunos humilhados e uma professora redimida. 
    “Vamos lá, pessoal. Quem responder direito à pergunta agora vai ganhar dois pontos positivos: o que é ser um bom cidadão?”

terça-feira, 4 de abril de 2017

A Inveja

(capítulo extraído do livro de contos "Não julgarás - Valeriana e outras sete", lançado pelo KDP em fevereiro de 2016)


Inveja: palavra que provém do latim invidia. Pecado capital definido comumente como “Tristeza com o bem de outrem, porque esse bem é entendido como uma diminuição da sua própria excelência pessoal”. É um vício derivado da soberba. Não é um defeito genético, mas pode se perpetuar por uma má formação da consciência moral no ambiente familiar. Consiste também no regozijo pela desgraça que sucede ao próximo, como se a felicidade alheia fosse um fator de perturbação da própria felicidade. Gera exultação pela adversidade alheia, calúnia, maledicência, delação, ódio, aflição pela prosperidade, murmuração, mau-olhado. Na forma de ciúmes, a inveja é proibida nos Dez Mandamentos da Bíblia. Sinônimo: sadocompetitividade: (sadismo + competitividade) designativo de uma das qualidades que constituem a base das relações interpessoais nas sociedades humanas, desde os seus primórdios. Estado de insatisfação íntima permanente em relação a múltiplos aspectos da própria condição de indivíduo que consagrou a busca ostensiva por reconhecimento externo, muitas vezes através da aquisição de bens materiais, como método de estabelecimento da própria supremacia e foi um fator fundamental para a evolução dos intercâmbios sociais e econômicos nas várias comunidades até a obtenção do sofisticado sistema financeiro global adotado atualmente. Perversão largamente estudada e explorada pelos mecanismos de manipulação de massa que geralmente se manifesta por meio de agressão psicológica, que, diferentemente da agressão física, na grande maioria dos casos não é considerada grave e passível de punição. Constitui um comportamento socialmente aceito que contribui para o aperfeiçoamento de métodos de hierarquização que estabelecem a posição de um indivíduo dentro de uma coletividade. Obtusidade, inconsistência, insatisfação, incapacidade, insalubridade, infelicidade. Antídoto ou virtude: compaixão, empatia.

                                                                          ...

      Regiane sentia vergonha do que havia feito, mas não muita. Claro, se alguém descobrisse a verdade, a vergonha seria maior. Mas, até o momento, estava tudo sob controle. Ainda bem. Na verdade, nutria um certo senso de culpa porque não era um monstro, era só uma pessoa como todas as outras. Era imperfeita, ou melhor, perfeitamente imperfeita. Mas se perguntava: “existe alguém que não seja assim? Não. Mas, infelizmente, muitas pessoas não tinham humildade suficiente para admitir isso. Pensavam que eram perfeitas, que não tinham defeitos, só caprichos, traços que tornavam a sua personalidade ainda mais fascinante. Alguém tinha que fazer alguma coisa para tirar essas pessoas do pedestal. Fazer isso é prestar um serviço para a comunidade e também para esses que se julgam os reis da cocada, embora tenham que sofrer um pouco com a queda. Mas o que eles pensam? Que vão conseguir viver a vida inteira como se estivessem de férias da realidade? Não é correto todo o mundo estar comendo o pão que o diabo amassou enquanto alguns continuam a agir como se vivessem em uma bolha de felicidade. Claro que isso não está certo. Não adianta ficar assistindo a isso de braços cruzados como se a vida fosse uma novela. Muita gente faz assim. Fica esperando chegar aquele capítulo da novela no qual o personagem intragável se dá mal e acha que justiça foi feita no mundo. Vai dormir satisfeito e no dia seguinte está pronto para ser humilhado de novo. Tem gente que precisa tomar algumas doses de verdade na veia. Tratamento de choque mesmo, senão não acorda. Tudo ao vivo e a cores.” Ela teve que interromper os seus pensamentos porque os primeiros clientes já se acumulavam na frente do guichê. “O próximo” disse ela para o primeiro da fila, e mais um dia de trabalho começou. Regiane trabalhava em uma das poucas agências bancárias de uma simpática cidadezinha do interior, onde todos se conheciam. Ali era um lugar muito bom para quem gostava de levar uma vida pacata. Os jovens costumavam ficar entediados e muitos iam para a cidade vizinha quando queriam se divertir, pois era bem maior e mais desenvolvida. Naquela agência, a rotina permanecia a mesma há muitos anos. Às vezes acontecia alguma mudança na chefia, pois os gerentes tinham que fazer uma espécie de rodízio entre vários pontos de atendimento para evitar o surgimento de alguns vícios que se podem manifestar quando alguém acaba criando raízes em uma posição de comando. Como quem ocupava a função de caixa não tinha este problema, há mais de uma década os clientes encontravam sempre os mesmos rostos por trás do vidro espesso do guichê. Ao lado de Regiane que, como diz o próprio nome, irradiava algo de régio e fazia questão de ocupar sempre a posição central, sentavam suas colegas Lucinha e Clotilde. Tinham suas diferenças, mas, de um modo geral, a convivência entre elas não apresentava nada de anormal, bastava respeitar a hierarquia e a paz estava garantida. Lucinha era a mais tímida das três, e também uma pessoa muito dócil que concordava com tudo e preferia voltar atrás nas suas posições para não fomentar discórdias. Era um alívio para Clotilde ter a Lucinha ali, pois, assim, pelo menos poderia estar certa de que não seria a última na classificação geral. Detestava fazer o papel daquela cuja opinião não vale nada. Bastava olhar para a Lucinha com uma expressão irônica que denotasse um pouco de contrariedade e ela já começava a gaguejar. Era fácil fazer com que ela se sentisse inadequada quando era preciso. Clotilde havia se acostumado tanto com esse recurso que às vezes ficava até ansiosa esperando que Lucinha desse alguma deixa. Assistir às suas tentativas humilhantes de se justificar por algum erro que não havia cometido e afundá-la mais ainda no próprio embaraço apenas com um movimento quase imperceptível no canto da boca era um modo infalível de recarregar a própria autoestima. Em relação à Regiane, já era uma história bem diferente. Era preciso ter sempre cuidado para não dizer nada que pudesse ferir a sua sensibilidade, pois sabia que ela podia ser muito vingativa. E era melhor evitar situações embaraçantes. Já havia tentado abaixar um pouco a sua crista no passado e não havia obtido bons resultados. Aliás, os resultados foram péssimos. “As pessoas precisam saber agir com ponderação senão a convivência se torna impossível. Não dá para viver em pé de guerra o tempo todo. Já tenho que lidar com o stress do trabalho, não posso ficar me desgastando por qualquer bobagem”, repetia Clotilde para si mesma toda vez que recebia uma alfinetada proveniente do guichê central. Sentia-se bem quando conseguia superar a situação mantendo um certo ar de impassibilidade. Sabia que uma reação neutra seguida de um pouco de adulação sempre funcionava com Regiane. A sequência melhor era: hum, hum; pausa; olhar atento e demorado para algo que ela estivesse usando; nossa, que lindo isso! Onde você comprou? Tinha que seguir mais ou menos essa sequência. Às vezes Clotilde até desconfiava que as alfinetadas chegavam justamente com este intuito. “No fundo eu tenho dó da Regiane. Com aquele traste de marido que ela tem, não poderia ser diferente. Quando os vejo juntos, agradeço a Deus por nunca ter me casado. Ainda bem que dali não saiu nenhum filho, certamente seria um monstrinho. Entendo perfeitamente porque ela tem essa obsessão com a própria aparência. Precisa investir um bocado para melhorar um pouco o visual. Deve gastar o salário inteiro em roupas e sapatos e mesmo assim a primeira coisa que se nota nela é a cara de quem chupou muito limão. Fazer o quê? Cada um luta com as armas que tem.” A fila andava em um ritmo normal e Lucinha procurava atender a todos com um sorriso. Muitos clientes a cumprimentavam e perguntavam se estava tudo bem, e isso fazia com que se sentisse em casa. Gostava de desempenhar bem a sua função e ainda se sentia motivada depois de mais de dez anos de profissão, apesar de ter que aguentar todos os dias as duas bruacas que trabalhavam ao seu lado. Tinha consciência de não ser uma santa, e nem pretendia isso de ninguém, mas aquelas duas eram um capricho da natureza. Mas estava conformada. Sabia que não dava para ter tudo na vida e já estava bem satisfeita com o que havia recebido. Ultimamente sentia-se muito feliz. Há algum tempo vinha saindo com um rapaz que realmente havia conquistado seu coração. Ainda não haviam marcado o casamento, mas ela sentia que daquela vez daria certo. Sonhava em ter uma família, era tudo o que ela mais queria. Estava desconfiada de que era algo que poderia acontecer antes do previsto. Tinha a sensação de que seu corpo estava diferente nas últimas semanas. Poderia estar grávida. Seria bom demais se fosse verdade. Sabia que se as bruacas descobrissem, teria um problema. Fariam de tudo para atormentá-la. “São umas hienas esfomeadas que não podem sentir cheiro de carne, senão ficam ainda mais loucas. E se o assunto envolver bebês, não sei o que aquelas recalcadas serão capazes de inventar. Vou ficar bem quietinha.” Lucinha procurava ser discreta o mais possível em relação à sua vida pessoal. Sabia que existiam leis que garantiam o seu direito de separar o trabalho da sua vida privada, mas, na prática, muitas vezes era difícil estabelecer uma linha divisória bem precisa. Após alguns anos tentando contornar a situação, pensou em enquadrar o comportamento das bruacas como Bullying e fazer uma reclamação formal, mas chegou à conclusão de que seria muito difícil fazer isso. Elas não gritavam ou gesticulavam exageradamente, não faziam nada por escrito, era tudo subterrâneo, contido, silencioso, olhares de desprezo, pequenos gestos, tempos prolongados demais para dar respostas, murmúrios incompreensíveis, críticas veladas, caras e bocas. Não dava para acusá-las por serem chatas embora sentisse que o comportamento delas denotava muito mais do que uma simples antipatia. “São agressivas, mas não o bastante para exigir que sejam afastadas de mim. Se quero manter meu emprego, devo continuar a me relacionar com elas todos os dias durante seis horas por dia e tentar não enlouquecer”. Assim, Lucinha resolveu procurar um tratamento. Começou com a naturopatia. Tomou Florais de Bach por algum tempo, fez algumas sessões de Reiki, mas nada disso foi suficiente para eliminar os sintomas de ansiedade que se intensificavam. Não conseguia dormir bem. Procurou atendimento psicológico. Tomou antiansiolíticos. Fez três anos de psicoterapia. Acabou descobrindo uma série de coisas que não imaginava que estivessem guardadas dentro de si e que a tornavam ainda mais vulnerável a comportamentos agressivos. Passou por um processo de fortalecimento, mas, de certo modo, continuou a ser a mesma Lucinha de sempre. Nunca quis se moldar ao padrão de comportamento que as suas colegas estabeleciam no ambiente de trabalho, não valia a pena. Tinha certeza de que se continuasse a fazer o que acreditava ser o melhor que podia, um dia as coisas iriam resolver-se de alguma maneira. Agora, estava vivendo um momento muito bom da sua vida e acreditava que era fruto de todos os esforços que vinha fazendo para enfrentar seus problemas sem ter que deixar de ser a pessoa que acreditava ser realmente.
     No meio da tarde, o gerente foi até Lucinha e pediu discretamente para que ela passasse no seu escritório no final do expediente. Clotilde lançou um olhar indagador a Regiane que arcou ligeiramente os ombros para mostrar que não tinha nem ideia do que estava acontecendo. Mas tinha, e como. As três prolongaram ao máximo a permanência na agência. Lucinha estava esperando que as outras duas fossem embora e elas ficaram enrolando para estarem ali quando ela fosse falar com o gerente. Ele não trabalhava em uma sala completamente isolada. Separando os ambientes havia apenas uma parede baixa de vidro. Houve um momento em que Lucinha olhou rapidamente para o lado e teve a impressão de que Regiane havia desviado o olhar imediatamente, mas continuou sorrindo de modo enigmático, como uma Monalisa que ninguém teria prazer em pintar. Sentiu os sintomas da ansiedade chegarem a galope. Algo lhe dizia que a bruaca número um estava aprontando alguma coisa pesada dessa vez. O gerente cansou de esperar e foi até os guichês do caixa. Dispensou as bisbilhoteiras e chamou Lucinha para conversar.
     Regiane manteve o ar de curiosidade e inocência até sair da agência e ver que Clotilde já estava bem distante. Foi para casa caminhando e não conseguia parar de rir. Detestava o gerente e toda a sua família. Desde a chegada dele na agência ela desaprovara terminantemente a sua arrogância. Dava-se ares de pessoa refinada. Quando se dirigia a ela, fazia questão de demonstrar que a considerava uma caipira sem nenhuma classe. A sua mulher era uma perua do pior tipo; nas poucas vezes que a encontrou pôde perceber claramente que era uma pessoinha detestável. “Que idiotas esses almofadinhas metidos a besta, não têm ideia da pessoa com quem estão lidando.” Foi então que um dia teve uma brilhante ideia enquanto olhava desinteressadamente para o lado e viu a “Lucinha Come Quieta” balançando maliciosamente as madeixas encaracoladas e sedosas de um lado para o outro. ”Desculpe-me,” pensou consigo mesma, “mas uma pessoa que cultiva uma cabeleira vermelha desse tamanho está querendo chamar mais a atenção do que um caminhão de bombeiro em dia de incêndio. Só falta ela gritar: fogo, fogo, venham todos apagar meu fogo!” Olhou para o fundo da sala e reparou que o gerente tinha o costume de pendurar o seu ridículo paletó em um dos ganchos de pendurar casacos colocados em uma parede que ficava de frente para o “aquário” – era assim que Regiane chamava o escritório do gerente. Quase ninguém usava aqueles ganchos, mas o gerente não perdia nenhuma oportunidade para demonstrar quanto era refinado e deixava lá pendurado para todo mundo apreciar o seu antiquado paletó italiano. Não foi difícil imaginar um plano. Como era bom relembrar e saborear cada detalhe. Sem perceber, já havia chegado em casa. Abriu o portão e a porta da frente. Lá dentro não havia ninguém. Seu marido nunca estava em casa. Certamente estaria bebendo no bar. Ela passou pela sala escura e foi direto para o quarto. Abriu o guarda-roupa e pegou uma peruca ruiva cheia de cachos. Colocou a peruca na cabeça e balançou lentamente a cabeça sentindo os movimentos sensuais daqueles fios de fogo. Imaginou que tinha olhos verdes e que seu corpo era carnudo e cheio de curvas. Ficou ainda mais satisfeita quando pensou na cara que a mulher do gerente devia fazer quando via, um dia atrás do outro, o seu querido maridinho chegar em casa com fios de cabelo ruivos pendurados na lapela. Conseguia ver o seu rosto contorcido de horror e essa imagem fez com que ondas de prazer percorressem e fizessem tremer o seu corpo macilento. Imaginou que a insuportável mulher do gerente pudesse escutá-la enquanto sussurrava triunfante: “esses cabelos são meus, sua vaca, são meus lindos cabelos ruivos. O seu marido prefere as ruivas”.




quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

A Luxúria

(capítulo extraído do livro de contos "Não julgarás - Valeriana e outras sete", lançado pelo KDP em fevereiro de 2016)

Luxúria: palavra que provém do latim luxuria. Pecado capital definido comumente como o “desejo passional e egoísta por todo o prazer corporal e material”. É também identificado como apego aos prazeres carnais, corrupção de costumes e sexualidade extrema. Gera obscurecimento da mente, egoísmo, apego ao mundo, aversão a Deus, inconstância, irreflexão, precipitação, desespero em relação ao futuro. De modo geral, foi um tema sobre o qual se debruçaram as mentes mais brilhantes da cristandade, principalmente durante a Idade Média, período em que os conceitos a respeito do significado de pecado e dos limites que deveriam ser mantidos na relação com o mundo sobrenatural consolidaram-se, constituindo o conjunto de imagens que popularam o imaginário coletivo, forjaram o senso comum e estabeleceram os parâmetros morais da sociedade ocidental sobre os quais se fundamentaram a justiça e as relações sociais. Esse ideário caracterizou-se por um forte carácter misógino. Um exemplo disso é o documento Malleus Maleficarum, escrito e publicado em 1486 por dois monges dominicanos alemães, Heinrich Kramer e James Sprenger, que consideraram a luxúria um elemento intimamente ligado às práticas heréticas. Eles estabeleceram paradigmas que foram adotados pelas autoridades da inquisição até o século XVII nos julgamentos de bruxaria que culminaram na morte de milhares de pessoas, na grande maioria mulheres, em toda a Europa Ocidental. Segundo eles, “toda bruxaria provém da luxuria carnal, a qual na mulher é insaciável. Uma coisa nunca é satisfeita: a boca do útero”. Nesse texto, distinguem-se três vícios, de cunho sexual, que exercem domínio especial sobre as mulheres perversas: a infidelidade, a ambição e a luxúria. Algumas passagens salientam que o intelecto feminino é desfavorecido e que, por isso, a mulher é incapaz de absorver e elaborar mentalmente conceitos complexos; a impossibilidade de recorrer ao pensamento e à razão para interpretar e corrigir os próprios impulsos provocaria uma hipertrofia dos instintos, tornando as mulheres mais inclines à utilização de práticas malignas e imorais para satisfazerem seus desejos. Explica-se que isso ocorre porque a mulher “é mais carnal que o homem, sendo justificável, a seus olhos, a maioria das abominações carnais. E deve ser notado que existiu um defeito na formação da primeira mulher, uma vez que ela foi formada de uma costela curva, ou seja, a costela do peito, à qual é arqueada como se fosse em direção contrária a um homem. Quando uma mulher chora, ela obra para iludir o homem. [...] Em consequência ela mostra que duvida e tem pouca fé na palavra de Deus. E tudo isso é indicado pela etimologia da palavra: pois femina procede de fe e minus, uma vez que ela é sempre fraca para manter e preservar a fé. Portanto, uma mulher é por sua natureza mais rápida em hesitar em sua fé, e consequentemente mais rápida em abjurar a fé, que é a causa da bruxaria”. Ao longo dos séculos, os conceitos ligados à sexualidade foram sendo elaborados com base em incompreensões profundas a respeito da manifestação da essência humana em dois gêneros diferentes e em todas as nuances que envolvem essa classificação. Por mais absurdas que possam parecer algumas passagens citadas acima no que se refere às características depreciativas atribuídas ao universo feminino, nos dias atuais ainda há muita confusão a respeito do que seja uma leitura espiritual da sexualidade sob uma ótica feminina. Desse modo, tudo o que foi estabelecido a respeito desse vício até o momento é incompleto. Sinônimo: obsexualismo: (obsessão + sexual + -ismo) designativo de um distúrbio de ordem sexual caracterizado bipolarmente por um estado de lascívia, sensualidade, libidinagem, desejo ardente e por um bloqueio dos próprios impulsos sexuais numa tentativa muitas vezes frustrada de suprimi-los através da racionalidade; esse bipolarismo cria uma tendência à culpa e à subversão da realidade na busca por redenção. Nota etimológica: obsessão provém do latim obsessione, cujo significado primitivo era assédio, cerco, bloqueio que evoluiu para: ação ou efeito de importunar com persistência e assiduidade ou, ainda, estado de pessoa que se crê atormentada, perseguida pelo espírito maligno, e, em sentido figurado, ideia fixa, preocupação constante, mania. Matéria, carne, desejo, cegueira, sexo, céu, inferno, céu dentro do inferno. Antídoto ou virtude: pureza, castidade.

...

As amigas conversavam animadamente sentadas ao redor da mesinha de centro sobre o tapete felpudo da pequena sala de estar do apartamento de Mariana. Daquela vez as cinco se reuniram para comemorar o dia 8 de março de um modo diferente. Estavam cansadas de fazer programas nos quais pareciam ter a obrigação de mostrar quanta liberdade tinham para imitar os homens, fingindo divertir-se com piadinhas machistas ao contrário, com representações patéticas de superioridade nas quais procuravam exsudar todo o ressentimento acumulado durante o ano através de um festival de insultos que não poderiam ser ditos diretamente aos seus chefes, colegas, pais, irmãos, maridos, namorados, porteiros, professores, vizinhos e a todos aqueles que as atormentavam cotidianamente com perfeita naturalidade e que não iriam mudar em nem uma vírgula o seu modo de ser depois de mais um Dia Internacional da Mulher. Alguns dias antes, Mariana havia lido em uma revista um artigo interessante, no qual a colunista dizia que o feminismo era uma luta fadada ao insucesso porque, na verdade, era uma reivindicação a uma participação igualitária em um modelo de sociedade concebido sem uma participação efetiva da mulher. Isso porque ela sempre esteve ocupada demais em remendar os estragos provocados pelos homens durante suas maravilhosas conquistas através das quais direcionaram a nossa espécie para a autodestruição. Qualquer conquista obtida através do feminismo, apesar de ser melhor do que nada, é apenas mais um passo dado na direção de uma adaptação forçada das mulheres a essa lógica, esterilizando elementos que seriam fundamentais para se chegar a um equilíbrio. Dizia que era preciso atentar para o fato de que não estava sendo levada a sério a urgência de se fazer um pouco de silêncio para deixar vir à tona tantas certezas que as mulheres reprimem há tanto tempo como se fosse vergonhoso e indigno cultuar a vida nas suas formas mais profundas. A vida. A terra. A vida que ela é capaz de carregar dentro do seu corpo como a terra faz com todos nós. O artigo terminava com uma afirmação que deixou Mariana intrigada: “o mundo precisa de mais bruxaria e menos histeria”. Ela se considerava uma pessoa razoavelmente culta, havia cursado uma boa faculdade, concluiu diligentemente o curso de mestrado, viveu algum tempo no exterior e estava pensando em começar um doutorado. Atualmente trabalhava em um órgão público. A sua área de atuação não tinha nada a ver com história, sociologia ou filosofia, ela era só uma pessoa que se interessava por aquilo que estava acontecendo com as pessoas de um modo geral. Não era do tipo que buscava aprofundar-se nos problemas éticos e humanísticos mais em voga através de obras especializadas, preferia ler romances e artigos que usavam uma linguagem direta e compreensível ao público comum. Não gostava de livros de autoajuda, mas, não raras vezes, sentiu que seria bom se pudesse contar com um pouco mais de ajuda para resolver suas crises pessoais. Tinha algumas boas amigas com as quais podia conversar de vez em quando, o que já era algo extraordinário, pois conhecia pessoas que só tinham colegas que se viessem a conhecer alguma sua fraqueza podiam puxar o tapete debaixo dos seus pés a qualquer momento. Não conseguia deixar de concordar quando alguém comentava que o mundo estava ficando cada vez mais louco. “Isso que estão fazendo é uma loucura, você não acha?” e ela balançava a cabeça anuindo “é verdade, é uma loucura”, “se continuar desse jeito, aonde a gente vai parar?”, e ela, sem conseguir formular nenhuma resposta plausível e tentando espantar uma série de imagens apocalípticas que passavam instantaneamente pela sua cabeça, repetia “aonde a gente parar, né?”. Intimamente sabia que todo mundo sabia que havia alguma coisa bem errada no ar. Sentia sempre aquela sensação familiar que leva as pessoas a adotarem uma frase de efeito para enfrentarem as situações absurdas do dia-a-dia, como um modo para dizerem a si mesmas que estão cientes do problema, não podem fazer nada e seguem adiante assim mesmo. Tinha sempre uma na manga para qualquer eventualidade. Adorava a antimanicomial “de perto ninguém é normal”, pois ajudava a aliviar a tensão quando tinha que lidar com personagens realmente difíceis. Gostava também da frase irônica de Joel Santana “se cobrir vira circo, se cercar vira hospício”, quando se tratava de algum acontecimento incompreensível de forte caráter nacional. Recitava com um certo orgulho “na maioria das vezes, um pepino é só um pepino”, de Freud, quando tinha urgência em desmistificar as coisas, e partia logo para o ceticismo extremo de Nietzsche com “a crueldade é um dos prazeres mais antigos da espécie humana”, quando a coisa parecia realmente sem esperança. No fundo, eram todas frases conformistas e ela sabia disso. Porém, aquela frase sobre histeria e bruxaria instigou a sua curiosidade de um modo diferente. Achou uma ideia interessante, mas não sabia exatamente o que uma coisa tinha a ver com a outra. Pesquisou na internet e verificou a que histeria há algum tempo havia sido desmistificada pela psiquiatria e perdera a conotação que tivera desde a antiguidade, quando foi considerada um distúrbio ligado a um mau funcionamento do órgão sexual feminino – como indica o próprio nome que provém de uma palavra grega que significa útero – e, após o surgimento da psicanálise, vinha sendo tratada como uma neurose causada por lembranças reprimidas de grande intensidade emocional. Atualmente, o termo histeria era considerado um conceito genérico, tendo sido ramificado em conceitos clínicos mais específicos. Durante a Idade Média, a manifestação dessa doença, que atingia principalmente mulheres e envolvia, além da instabilidade emocional, sintomas físicos tais como cegueira, surdez e paralisia, foi comumente confundida com feitiçaria e tratada, ou extirpada, com torturas, exorcismos ou assassinatos. “Muito bem”, pensou, “e a bruxaria?” Também. Bingo! O que era a bruxaria então? Sentiu uma sensação estranha ao se fazer esta pergunta. Já tinha visto muita coisa sobre isso, filmes, livros, cresceu ouvindo contos de fadas nos quais sempre havia uma bruxa malvada e nariguda. Uma vez havia se fantasiado de bruxinha sexy para ir a uma festa de Helloween, e foi muito divertido. Enfim, era uma imagem banalizada, vazia. Na melhor das hipóteses, o misticismo feminino era uma alusão a um mundo sobrenatural transformado em uma metáfora da realidade, uma alegoria de coisas irracionais, intangíveis e incontroláveis que deviam ficar à margem de uma vida sã. Seria a ridicularização da sua imagem uma outra forma de fogueira na qual o seu significado mais profundo transforma-se em fumaça e cinzas? Respiramos no ar essa fumaça e caminhamos tranquilamente sobre suas cinzas? Sentimos atração ou repulsa pela ideia de algo que não existe? Por que é uma ideia que persiste no nosso imaginário? Surge da mesma forma em que surge a ideia que temos de Deus? É uma ideia que se contrapõe à ideia de Deus? Pensando sobre essas coisas, Mariana concentrou-se na imagem que fazia de Deus. Na sua mente, se Deus fosse alguém, ele seria um homem. Nunca vira Deus como uma mulher. Ela era uma mulher e via Deus como um homem. O que isso queria dizer? Que ela era menos semelhante a Deus do que os homens? No fundo, isso representava ter consciência da própria inferioridade? Se algum dia a sua razão pudesse suprimir completamente a sua religiosidade, essa sensação de inferioridade desapareceria ou se reforçaria ainda mais? O que lhe restaria? Não sabia por que estava indo tão longe com aquela história. Talvez porque estivesse tendo muito tempo para pensar ultimamente. Um certo vazio invadira a sua vida de um modo que ela não imaginara ser possível acontecer com alguém nas suas condições, quando tudo parecia estar encaixado no devido lugar. Não era um vazio no sentido de não saber o que fazer. Tinha metas a alcançar, uma carreira pela frente, planos de continuar os estudos, lugares que gostaria de conhecer ao redor do mundo. Morava bem, comia bem, tinha um bom carro, um bom salário. Dormia bem. Relacionava-se bem com seus pais e irmãos, embora os visse esporadicamente, quando tinha alguns dias de folga e podia viajar para o interior. Era vista como um exemplo para as suas sobrinhas, a tia independente e inteligente que conseguiu tudo o que queria na vida. “E ainda é tão nova”, diziam sempre ao se referirem a ela. Mas sentia um grande vazio dentro de si. Sabia que nesses momentos as pessoas têm que ficar muito atentas para não caírem em armadilhas. “Está cheio de espertalhões por aí querendo preencher o vazio de pessoas vulneráveis que se deixam manipular por um pouco de consolo. Não sou idiota. A verdade é que parece que uma parte de mim está dormindo, como se estivesse anestesiada, e tenho a impressão de conseguir conviver com isso até o fim da minha vida, mas não sei se quero continuar desse jeito.” Há muito tempo Mariana não sentia mais atração por ninguém. Não havia passado por nenhum episódio traumático, ou qualquer coisa do tipo. Seus hormônios estavam sendo regularmente produzidos pelo seu corpo, conforme o resultado dos últimos exames que havia feito. Não havia nada de errado com ela. Começou a pensar que talvez fosse lésbica. Tentou sair com uma mulher que conheceu nas aulas de aeróbica que vinha dando algumas investidas na sua direção. Foi frustrante para as duas, pois não rolou nada. Mariana acabou se abrindo no final e as duas acabaram trocando confidências, como boas amigas. Passou a encarar a coisa como uma situação passageira, que mudaria sozinha com um pouco de paciência. Mas não mudava. Achou que talvez a abstinência de sexo fosse uma característica da sua personalidade, como poderia ser o caso de tantas religiosas que fazem voto de castidade e vivem serenamente. Leu algumas histórias de santas e ficou surpresa ao saber quanto fervor elas sentiam dentro de si. Algumas narravam detalhadamente momentos de arrebatamento espiritual durante os quais se sentiam completamente possuídas pela presença divina. Leu atentamente as palavras de Santa Teresa D’Ávila que inspiraram o célebre escultor Bernini a representá-la na pedra como se ela estivesse flutuando de êxtase espiritual após ter sido transpassada pela lança ardente de um anjo. Pensou que talvez esse tipo de arrebatamento fosse reservado às santas e que as freiras mais comuns fossem apenas frias, como ela. Tudo era muito confuso na sua cabeça. Estava tudo bem e também tudo mal. Sentia-se normal e anormal ao mesmo tempo. Ouviu falar de sublimação, processo no qual algumas energias instintivas primitivas, entre elas a sexualidade, são canalizadas e transformadas em coisas sublimes tais como obras de arte e feitos hercúleos. Chegou à conclusão de que este também não era o seu caso, pois não havia nada de extraordinária naquilo que fazia. Não estava sublimando nada ultimamente. Nem sabia direito o que aquilo significava. Quando ouviu falar de bruxaria, de forças interiores que haviam sido esquecidas em um passado distante, de fluxos cósmicos em constante movimento, de energias da terra, de mistérios da vida e da sexualidade algo pareceu reagir dentro dela. Pensou que talvez essas coisas pudessem ajudar. Comprou um livro que ensinava algumas práticas que poderiam ser feitas por pessoas leigas para iniciar-se na magia – magia branca, obviamente. Foi então que teve a ideia de preparar alguma coisa para fazer com suas amigas. Ligou para elas marcando o encontro para a noite do dia 8 de março, data perfeita para começar a incentivar a mulher que se escondia dentro dela a sair para a vida. Estavam todas presentes naquela noite, sentadas ao redor da mesinha decorada com objetos rituais recém-adquiridos e com os pés descalços que alisavam o tapete felpudo. A luz estava apagada e algumas velas acesas perfumavam o ambiente. Mariana havia preparado um breve ritual para que entrassem no clima e pudessem passar para a segunda parte, quando cada uma teria que responder a algumas perguntas íntimas. Já havia passado mais de uma hora e ainda não haviam começado, pois as amigas não paravam de falar. A anfitriã não queria ser indelicada e pedir silêncio, pois sabia que elas não se viam há algum tempo e conversar um pouco também fazia parte do processo, mas já estava ficando impaciente. De repente, para sua surpresa, a Selminha tirou de uma sacola uma garrafa de bebida que continha um líquido verde bem vivo e uma caixinha com cubinhos de açúcar. Todas aplaudiram muito animadas, menos a Mariana. “Isso aqui é uma maravilha, Absinto do bom, também conhecido como Fada Verde. Só preciso de água gelada e de umas taças. Vou lá pegar, tá?” E foi levantando ao som de “Viva a Selminha, Selminha boa companheira!”. Mariana foi atrás da amiga que já estava na cozinha abrindo a geladeira. Sussurrou baixinho para que as outras não pudessem ouvir: 
“O que você está fazendo? Assim, vai estragar tudo o que programei para fazermos hoje. Eu disse que era importante para mim”. 
“Relaxe, querida. Por que ficar tão tensa? Vai dar tudo certo, você vai ver. É só você ficar boazinha e relaxar. Onde estão as taças?”
Mariana pegou as taças e levou-as até a mesinha. As outras perceberam que ela estava contrariada e trocaram olhares cúmplices. O primeiro drink preparado foi para ela. Era gostoso, refrescante, forte. Ela foi bebericando devagar enquanto observava a Selminha preparar os outros drinks. Aquilo tinha um efeito hipnótico. Ela colocava um cubo de açúcar sobre um garfo deitado nas bordas da taça, derramava sobre ele uma quantidade abundante de líquido verde, depois, aproximava a chama de uma vela e o cubo se incendiava. O açúcar ia derretendo e mudando levemente de cor enquanto espalhava vapores adocidados e aromatizados pela sala. Não era o que havia imaginado para aquela noite, mas também não era tão ruim assim. Afinal, encher a cara também era um ritual. Fizeram outra rodada, e mais outra. Mariana ouviu alguém dizer que queria dançar. Chamaram um táxi. No trajeto do apartamento até a portaria, que parecia bem mais longo do que de costume, alguém perdeu o equilíbrio e se segurou em quem estava por perto. Três corpos cambalearam e caíram no chão fazendo um barulho de saltos riscando o piso e ossos batendo contra uma superfície rígida. Bolsinhas plainaram no ar e batons projetaram-se como jatos supersônicos contra a parede. As duas que ainda permaneciam em pé também despencaram no chão, pois não conseguiam rir e manter o equilíbrio ao mesmo tempo. Uma porta se abriu no corredor e alguém começou a falar alto e a gesticular. Mariana gatinhava para alcançar algo sólido onde pudesse se apoiar para colocar-se em pé, mas era uma tarefa difícil. Viu algumas mãos que balançavam o dedo médio levantado na direção de uma figura de pijama que logo em seguida bateu a porta com força. Apoiaram-se umas nas outras e conseguiram ficar de pé. Estavam todas inteiras. O porteiro apareceu perguntando se precisavam de ajuda. “Dona Mariana, a senhora sabe que já é tarde, os moradores reclamam...” ela tentava manter uma certa compostura enquanto lutava para conter as amigas que tentavam formar a figura de uma divindade indiana com vários braços levantados mostrando o dedo médio. “O táxi da senhora já chegou”, disse ele, por fim, mantendo uma certa distância de segurança. Quando finalmente a trupe ultrapassou a porta do prédio e ela se fechou nas suas costas, ele fez um respiro profundo de alívio. O taxista não ficou muito feliz com a ideia de carregar cinco bêbadas de uma vez no seu táxi, mas achou melhor não discutir. Elas que se amassassem no banco de trás. Pegou um pedaço de papel com o endereço e afundou o pé no acelerador para se livrar logo delas. Olhou pelo retrovisor e viu que ao serem jogadas de um lado para o outro como sacos de batata se divertiam mais ainda. Desovou-as na porta da discoteca, que estava muito cheia por ser um dia de semana. “Deve ser por causa dessa porra de Dia da Mulher; elas ficam nesse estado e depois ainda reclamam quando acontece alguma coisa”, pensou consigo mesmo; olhou-as com um ar de reprovação enquanto uma delas tentava pegar a quantia certa de dinheiro na bolsinha. “Fique com o resto. Depois nós vamos chamar o senhor de volta, mais tarde, tá bom?” Ele anuiu, pegou o dinheiro e foi embora. 
Dentro da discoteca, o som e as luzes transportaram-nas diretamente para a pista de dança lotada. Depois de algum tempo dançando desvairadamente, aproximaram-se delas alguns rapazes, jovens e bonitos. Mariana reparou que Laura parecia conhecê-los. “Nossa, que coincidência!” exclamou e apresentou-lhe um deles dizendo que era um colega do escritório. Seu nome era Renan. Tinha um sorriso realmente encantador. Não saía do lado de Mariana e não perdia nenhuma oportunidade de esbarrar no seu corpo e, algumas músicas depois já segurava a sua cintura com mãos firmes e fortes. Ele perguntou se ela queria beber alguma coisa. A essa altura ela já estava fervendo por dentro. “Uau, esse cara é demais”, pensou. Olhou ao redor e as amigas haviam desaparecido. Ele sorria esperando uma resposta. “Que se dane, sou capaz de ir atrás dele até o fim do mundo”. Saiu da pista segurando a mão dele. Em um ponto mais escuro, ao reparo de uma coluna, ele parou e prensou o seu corpo contra o dela. Deu-lhe um beijo no pescoço. Foi dando beijos demorados na sua pele suada até alcançar a sua boca. “Perdi minhas amigas” disse-lhe por fim Mariana, “você pode me levar para casa?” E assim fizeram. Chegaram no apartamento dela e completaram o ritual previsto para aquela noite. De um modo ou de outro, era aquilo que ela queria. Suas amigas entenderam direitinho que por trás de toda aquela história que ela havia inventado, era aquilo que estava querendo encontrar. “Meu Deus, como é isso bom! Como eu pude ficar tanto tempo sem sexo?” pensou ela quando terminaram. Ele era o máximo, conhecia posições incríveis, sabia excitá-la no ponto justo e depois levá-la ao delírio com seu instrumento masculino perfeitamente torneado que tinha o tamanho certo, a temperatura certa, o ritmo certo. Durante todo o tempo em que passaram juntos deve ter dito umas quinhentas vezes que ele era um tesão de homem. Ela só achou meio estranho que logo depois da gozada final ele não tenha deitado novamente ao seu lado. Recuperou o fôlego sentado na beirada da cama. Tirou a camisinha e ela reparou que estava seca. Olhou espantada para ele que a assegurou de que estava tudo bem, que havia sido ótimo para ele também. Sorriu-lhe gentilmente e começou a vestir-se. Mariana também se sentou apoiando as costas na cabeceira da cama e cobrindo os peitos com um pedaço do lençol; a sua cabeça girava, estava meio tonta, mas assistiu a toda cena. Em dois minutos ele estava completamente vestido e calçava os sapatos. “Você já vai embora?” disse ela sentindo que o vazio que costumava dilacerar a sua alma sem nenhuma piedade já começava a se apossar de tudo lá dentro. Ele procurou alguma coisa no bolso da calça. “Não se preocupe, suas amigas já pensaram em tudo. Quando precisar, pode me chamar nesse número” e entregou-lhe um cartão de visita. Caminhou na direção da porta e disse de um modo muito profissional:
“Nem precisa se levantar, eu sei onde é a saída. Foi um prazer conhecer você.”




sexta-feira, 14 de outubro de 2016

A Ira



(capítulo extraído do livro de contos "Não julgarás - Valeriana e outras sete", lançado pelo KDP em fevereiro de 2016)


Ira: palavra que provém do latim ira. Pecado capital definido comumente como “emoção excessiva e violenta, paixão despertada por um sentimento de injustiça ou erro”. Quando a cólera se manifesta como justa indignação e dentro de limites razoáveis, ou seja, no momento adequado, contra quem a merece e com intensidade prudente, é uma virtude, não um vício. Torna-se um pecado quando está associada a motivos egoístas, alimenta sentimentos nefastos e provoca reações desastrosas. Gera insulto, perturbação, indignação, clamor, cizânia, disputa, blasfêmia, assassinato. Sinônimo: belicorreia: (belicosidade + -rreia) designativo de uma disfunção psicológica caracterizada pelo fluxo contínuo de ódio, raiva, cólera, fúria, violência e vingança. É o forte desejo de causar mal ao outro e um dos grandes responsáveis pela maior parte dos conflitos humanos. Em acepção política, é designativo de um índice atribuído aos países conforme a sua capacidade de responder belicamente a uma agressão; o índice é expresso em valores de 1 a 100 e é calculado com base em vários fatores, entre eles, o orçamento reservado à compra de armas. Através deste índice determina-se a relevância dos países para a resolução de conflitos internacionais e a sua capacidade de garantir a paz mundial. Por volta do século IV D.C., a classificação dos principais vícios humanos em pecados capitais distinguia um oitavo pecado: a Tristeza, que mais tarde foi incorporado à Ira, sendo considerado, então, parte dela. Antídoto ou virtude: paciência.



...




Noemi havia escovado os dentes depois do jantar e aprontava o material para a aula do dia seguinte. Sentia-se um pouco desanimada com a ideia de ter que acordar cedo para ir à escola. Estava com o saco cheio da escola, ainda bem que faltava pouco para terminar o terceiro ano e em breve ela estaria fora. Preferia mil vezes ficar no seu quarto ouvindo música e lendo. Adorava ler, mas não qualquer coisa. Já havia adquirido bastante experiência para distinguir textos bons de textos ruins. Era capaz de se resignar a ler um livro de quatrocentas páginas apenas para conhecer mais profundamente o estilo de um escritor, mesmo que não fosse o seu gênero preferido. Sabia a diferença entre respeitar a obra de um autor talentoso que não era do seu agrado e simplesmente achar que se tratava de uma obra ruim. Eram coisas completamente diferentes. Pena que não conhecia muitas pessoas com as quais pudesse conversar sobre esse assunto. Costumava ficar impressionada com a imbecilidade dos seus colegas de classe. A maioria deles era completamente idiota. Às vezes pensava que seria melhor se estudasse em um zoológico. Pelo menos ali não haveria expectativas frustradas de estabelecer um contato com criaturas hipoteticamente inteligentes; uma zebra poderia continuar tranquilamente a ser aquilo que sempre foi, sem decepcionar ninguém. Seria um ambiente bem mais divertido e honesto. “A fauna toda comendo e cagando sem que ninguém a perturbasse, que beleza.” Ela achava que a única explicação para aquela situação é que algumas pessoas nascem para passarem a vida inteira fazendo só aquilo. Para pensarem que tinham um pouco de liberdade bastaria que tivessem um trabalho, então passariam de manhã de uma jaula para outra, fariam alguma coisa repetitiva sem sentido durante o dia todo, comeriam e cagariam novamente, e de noite voltariam satisfeitos para as suas jaulas-dormitórios. Suas jaulas poderiam ser próprias ou de aluguel. “Os humanos são bichos burros mesmo” pensava Noemi. “Os bichos do zoológico não pagam nada pelas jaulas onde vivem porque estão em cativeiro e ficam expostos à curiosidade dos outros, que se divertem ao observá-los em um espaço reduzido, como se um ser selvagem que renunciasse à própria liberdade precisasse ganhar um bônus vitalício para morar de graça. Na nossa sociedade é preciso cometer algum crime bem horroroso para ganhar esse bônus. E depois de trinta anos o bandido tem que sair e logo cometer outra barbaridade qualquer para ver se consegue mais um bônus de trinta anos. “Ah, mas tem sempre um espertinho que vai dizer com a boca cheia de papilas gustativas impregnadas de sabedoria: mas isso não é vida, o sujeito tem que renunciar à própria liberdade. Me dói o estômago ouvir esse papo furado. Alguém por acaso sabe o que é liberdade? Hem? Alguém consegue me mostrar de modo coerente – atenção, eu disse de modo coerente – o que é liberdade? Posso até esperar o tempo que for necessário. Você tentou, não é, seu idiota? Como é possível ser livre e se prender às rédeas da coerência ao mesmo tempo? Você é só mais um que acha que sabe o que é liberdade, mas nem imagina o que seja isso. Você vive se reprimindo com medo de perdê-la, mas nunca a experimentou na sua vida. Por que você acha que o céu é infinito? Ele está em cima da cabeça de todo mundo, e quando você sai da jaula ele começa logo depois do seu fio de cabelo mais alto e não tem mais fim, e você nunca reparou que tem a sorte de ser o prolongamento dessa coisa infinita. Você é a parte do céu que caminha sobre a terra. Você é livre por natureza, seu imbecil, livre. Está confuso? Quando você era pequeno disseram que a sua liberdade termina onde começa a do outro, não é mesmo? Tem que ter respeito pelo próximo. Você quer falar de liberdade ou de respeito? Liberdade não é um espaço que alguém rouba de outra pessoa, não é um terreno com escritura no qual você coloca uma cerca de arame farpado. O que seria ter respeito pelo próximo? Quem é o próximo? Você me respeita? Se disse que sim, está mentindo. Você não me conhece, como pode me respeitar? Respeita porque sou um componente da sua espécie, assim, de modo impessoal e coletivo? E você acredita mesmo que é capaz de respeitar os componentes da sua espécie? Faça-me rir. Você confunde respeito com distância. Para você aquela frase escrita na rabeira dos caminhões que diz “mantenha a distância” é a ideia mais bem elaborada daquilo que você consegue definir como respeito. Para você, ter liberdade e respeito é manter a devida distância dos outros. Não tem nada a ver com ser uma parte do infinito e deixar que os outros também sejam. Você quer uma casa bem grande, com cômodos enormes, bem separada da rua, do seu vizinho, do mundo. Você quer ter dinheiro suficiente para pagar dignamente por todos os centímetros que separam você do mundo e das pessoas da sua amada espécie. Você precisa de tudo isso porque não tem ideia do que seja respeito pelo próximo. Nunca experimentou nada parecido. Ah! Já sei. São os outros que não sabem respeitar você. Pelo menos nessa deficiência a nossa espécie se reconhece como coletividade. Precisamos conquistar o respeito dos outros do mesmo modo que os leões na savana. Somos territoriais. Precisamos mostrar as nossas armas e expor toda a nossa capacidade de reagir com violência, senão ninguém nos respeita. Precisamos de reis e governantes na mesma medida em que nos comportamos como animais selvagens. Pensando bem, acho que somos só isso mesmo. Você é capaz de me dizer qual a diferença entre um governante que tem um exército armado até os dentes e um leão que defende seu território? É que um leão luta sem ter um exército armado até os dentes. Reformulo a minha afirmação. Pensando bem, acho que não sabemos nem mesmo ser selvagens. Somos patéticos. Somos a grande piada do universo. Às vezes imagino se em outros planetas os seres mais evoluídos não se divertem às nossas custas. Bom humor é uma característica de seres evoluídos, não é? Bem, talvez eles tenham instalado uma rede de câmaras de vídeo por aqui no estilo Big Brother e projetem cenas do nosso cotidiano nas paredes de antigas jaulas de zoológicos e cadeias que eles desativaram há séculos. Talvez tenham instalado câmaras microscópicas no corpo dos grandes poderosos do mundo e transmitam ao seu público imagens de reuniões de cúpula nas quais eles expõem, satisfeitos como porcos chafurdando, as importantes medidas que pretendem adotar para salvar o mundo de um desastre iminente. Depois mostram imagens da vida privada dos mesmos poderosos falando e agindo de modo contrário em relação a tudo o que afirmaram antes. Imagine só o que eles devem tagarelar quando pensam que ninguém está ouvindo: eu não quero mais ouvir falar de orçamento para ajudar esses mortos de fome. Por que eles não morrem de uma vez e param de encher o saco? Você sabe que se as pessoas improdutivas morressem sobrariam mais recursos para quem conta de verdade. Não importa se são crianças ou idosos. Qual o custo-benefício desta brincadeira de ficar prolongando a vida de gente inútil? A sociedade não foi organizada para esse tipo de coisa. Está vendo este mapa? Se tudo continuar conforme as nossas previsões, em breve vamos invadir aqui porque a nossa ideia de colocar este trouxa contra aquele outro deu certo e eles estão se matando em um ritmo decente. Claro, podemos tomar algumas medidas para acelerar um pouco o processo. Vamos mandar mais armas para eles? Acho uma boa ideia. Vamos fazer o possível para lucrarmos bastante dessa vez. Não se preocupe com a morte de civis. Ninguém mais liga para isso. Há um outro problema. A população está meio agitada com essa história da educação. Existem uns lunáticos publicando umas matérias subversivas que podem provocar alguns protestos. Tente desmoralizá-los e, se não der certo, faça do jeito tradicional mesmo, desça o cacete em quem estiver reclamando. Se a tensão aumentar, vai ser fácil desviar a atenção. Entre em contato com algum grupinho radical e incentive os fanáticos a matarem um punhado de pessoas em algum lugar público. Deixe os carniceiros da imprensa terem acesso a toda a operação de repressão ao terrorismo. Eles adoram, também lucram muito com isso. Divulguem bem o rosto dos bandidos cretinos durante a caçada. As multidões precisam ver um rosto. Precisam ter um rosto sobre o qual cuspirem. Explorem bastante a história pessoal das vítimas. Peça para mostrarem bem os corpos destroçados e as famílias das vítimas chorando. Isso é indispensável. Se houver filhos pequenos, melhor ainda. Podemos até fazer um funeral de estado, colocando as vítimas como heróis. Heróis do quê? Sei lá, de qualquer coisa que se oponha àqueles que foram capturados como criminosos. Heróis da Liberdade. Não ficou bom? É muito genérico? Ah, as vítimas não se opunham a nenhuma causa, só estavam passando ali no momento errado. Então podemos colocar “Heróis da Porra do Azar”. Também não ficou bom? Então pense você em alguma coisa, seu incompetente! E aquela questão das terras devolutas, o governo de lá já liberou a ordem para tomar posse de tudo? Ainda não? Eu já falei que isso era urgente! Já está tudo pronto para começar a escavar. Há anos estamos implantando este projeto e agora não dá mais para prolongar essa história. Cada dia que passa é dinheiro jogado fora. Está me dizendo que não conseguem tirar dali meia dúzia de desgraçados que não querem se mudar para a cidade? Agora me responda: por que eles insistem em ficar naquelas terras se nós já envenenamos tudo e não tem mais nada que cresça naquele deserto? Por quê? De onde eles estão tirando água para beber? Ah, uma ONG fez um poço para eles. Puta que o pariu! Por que vocês não impediram? Eu movo montanhas para foder com o lugar e vocês não conseguem impedi-los de receber ajuda? Agora tenho que foder tudo de uma vez. Mande alguém lá para inspecionar o poço e dizer que a água não é boa. Se reclamarem, coloquem alguma coisa na água para que eles nunca mais queiram usá-lo. Sei lá que tipo de coisa, fale com o pessoal competente. Não me interessa se eles só vão cagar as tripas ou se vão morrer. Vejam o que é melhor e mais rápido. Se achar que a morte de seis famílias naquele fim de mundo vai chamar a atenção de alguém, deixe-os vivos e ofereça a mesma ninharia que deu para os outros como ajuda humanitária para acelerar a transferência deles. Faça isso através daquele órgão internacional que sempre trabalha com a gente. Isso, aquele. Só não deixe que eles chamem muito a atenção. Eu sei que eles adoram fazer propaganda com este tipo de coisa, mas, você sabe, discrição é a alma do nosso negócio.” Noemi fechou o zíper da mochila de modo tão brusco que ele saiu na sua mão. “Que bosta de zíper! Eu falo para minha mãe não comprar mais essas porcarias descartáveis produzidas por escravos lá do outro lado do mundo. É tudo malfeito de propósito, para durar pouco. Consomem matérias-primas como gafanhotos. Eu odeio tudo isso aqui, tudo! É tudo uma grande bosta!” Jogou a mochila no chão e chutou-a para longe. Viu de relance a própria imagem no espelho. Parou um pouco para prestar atenção. Era uma mocinha com o rosto magro, cabelos escuros escorridos colocados atrás da orelha, sobrancelhas quase unidas na base do nariz, logo acima dos óculos. Seus olhos também eram escuros e profundos. Dois poços escuros de tristeza e rancor. Não gostou do que viu. Naquele momento teve certeza de que seria capaz de matar.