terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Vírus

 

E49K2Z95 acordou bem cedo para se preparar para mais uma jornada de trabalho, como vinha fazendo todos os dias desde que se mudou para a Capital.

No pensionato onde morava, E49K2Z95 dividia o seu quarto com outras duas colegas que, como ela, haviam saído muito jovens das colônias agrícolas onde nasceram para terminarem os estudos na cidade grande. Devido à dificuldade de comunicação com as colônias, haviam cortado relações com a família e dedicavam suas vidas ao estudo e ao trabalho. Sabiam intimamente que eram motivo de orgulho para as próprias famílias e que esse era o destino daqueles que conseguiam destacar-se das outras crianças, demonstrando que tinham habilidades especiais.

Depois de ouvir o som estridente da sirene que anunciava o início de mais um dia de trabalho, E49K2Z95 estava toda encolhida dentro do seu saco de dormir e alimentava uma vaga esperança de poder ficar ali o dia todo, sem que ninguém se desse conta da sua ausência. A sua cama era estreita, e assim que a sua ocupante se levantasse, ela se fecharia com a ausência de peso, embutindo-se na parede com um movimento suave. A cama e os poucos móveis do quarto haviam sido projetados para dar mais espaço para a troca de roupa e a higiene pessoal. Poupar espaço era algo de extrema importância para viabilizar a vida na Capital. Também era muito importante que cada um soubesse restringir o próprio espaço psicológico. Não era permitido incomodar as suas colegas de quarto ou quem quer que fosse ali no pensionato com conversas de conveniência, lamentações ou qualquer outro tipo de comunicação verbal que não tivesse uma justificativa prática ou que não fosse realmente relevante para a coletividade.

Em silêncio, E49K2Z95 finalmente criou coragem para abrir o seu saco de dormir e, sentada na beira da sua cama, olhou pela janela e viu que lá fora o dia já estava amanhecendo, embora os raios de sol permanecessem encobertos por uma atmosfera cinzenta. Suas companheiras de quarto já estavam em pé e vestiam seus uniformes após terem se lavado esfregando vigorosamente na pele os lencinhos umedecidos que cada uma pegava no dispensador comum afixado numa das paredes do quarto, e que exalavam um odor levemente floral misturado a um cheirinho agradável de desinfetante.

Era extremamente importante economizar água. Tomar um banho de verdade era o desejo secreto de muitas moradoras do pensionato, mas assim que começavam a se limpar com os tais lencinhos umedecidos, a sensação de bem-estar era tamanha que aquele desejo imoral e egoísta logo se desvanecia. Acostumadas àquela rotina, mesmo na presença das companheiras de quarto, elas esfregavam os lencinhos sem pudor também nas suas partes mais íntimas e era muito comum que esse exercício diário de assepsia fosse capaz de cumprir também uma segunda função, e as moças engoliam gemidos reprimidos enquanto seu corpo era tomado por ondas de prazer que iam e voltavam.

Por algum motivo, naquela manhã E49K2Z95 acordou sem sentir o impulso habitual de se limpar. Continuou sentada na beirada da cama a observar suas colegas que acomodavam as suas perucas de plástico nas respectivas cabeças lisas e lúcidas. Todas as moças do pensionato ao chegarem à Capital haviam passado por um tratamento que havia eliminado de modo permanente qualquer pelo do corpo. Ali pelos e cabelos não eram considerados atributos necessários. Enquanto hesitava imóvel ainda sentada em seu leito, E49K2Z95 foi invadida por uma sensação de estranhamento e confusão. Uma compressão em seu peito tornava a respiração difícil e suas mãos apertavam com força o tecido acolchoado do seu saco de dormir. Por um momento pensou em quebrar o silêncio e falar o que estava sentindo às suas companheiras quando a sirene soou novamente para avisar que as pilulas matinais deveriam ser recolhidas e ingeridas. Imediatamente no centro do pavimento do quarto abriu-se um pequeno orifício e um pilar iluminado com três colunas de luzes intermitentes foi subindo até chegar à altura de um metro e oitenta. Com um movimento rápido as três moças alcançaram as posições designadas para elas, indicadas com uma cor diferente para cada uma. Diante da coluna violeta, E49K2Z95 cumpriu ainda meio aturdida mais uma etapa do seu ritual diário. Começou a ingerir as pílulas conforme elas foram sendo dispensadas de modo sequencial. A cada nova ingestão era preciso prestar muita atenção à coluna luminosa, que alternava ritmos diferentes conforme o processo ia progredindo. Após a terceira pílula, a moça já se sentia melhor. A compressão no peito havia passado e os músculos do seu corpo já estavam mais relaxados. Alguns segundos após a quarta pílula, já começava a ter vontade de sorrir. O pisca-pisca que olhava fixamente parecia querer brincar com ela. De repente o seu corpo começou a embalar-se ao ritmo das luzes, seus quadris passaram a fazer movimentos circulares e os ombros e a cabeça se descontraíram num molejo lânguido. A essa altura seu cérebro já havia parado de enviar sinais de fome e todos os nutrientes necessários para as primeiras horas do dia já estavam sendo encaminhados para cada uma das células do seu corpo. Quando as luzes começaram a piscar em outro ritmo, a quinta pílula foi projetada para cima com um jato de ar, e ao pousar foi recebida na abertura das mãos de E49K2Z95 unidas em forma de concha e foi tomada por ela como se fosse uma bênção. Então as três colegas deram-se as mãos e continuaram a embalar-se e a gozar daquela sensação maravilhosa, como se estivessem perfeitamente integradas ao universo, como se tivessem deixado de existir individualmente.

Aos poucos elas foram readquirindo consciência de si mesmas e as suas mãos se desenlaçaram como cordas que se afrouxam após terem sustentado o peso de um corpo pendente e se abandonaram totalmente servis à ação da gravidade. As moças estavam prontas para mais um dia de trabalho.

E49K2Z95 apressou-se para recuperar o atraso. Limpou-se e vestiu rapidamente o seu conjuntinho aderente de tecido tecnológico que não permitia que sentisse frio nem calor. Correu para atravessar depressa todos os corredores até chegar ao elevador que desceu muitos andares até alcançar o saguão principal do pensionato, que era um grande salão envidraçado, um ponto de convergência onde se reuniam pela manhã todas as moças que se dirigiam ao trabalho. E49K2Z95 aguardou pacientemente a chegada do transporte que a levaria até a sucursal da empresa, que era também a proprietária do pensionato.

Uma dor de cabeça insistente começou a incomodá-la e a movimentação das pessoas ao seu redor aumentava ainda mais o seu desconforto. Sentia-se deslocada, como se não pertencesse àquele lugar. Lembrou-se de como foram difíceis os primeiros dias passados no pensionato. As sessões prolongadas de sonoterapia interativa a ajudaram muito. A cada sessão sentia um distanciamento maior do seu passado e da família que havia deixado para trás. Ela sabia que era um grande privilégio estar ali, na Capital, e que deveria ser grata pela instrução de alto nível que recebera e pelo trabalho que tinha. Agora sua vida estava completa.

O seu transporte estava demorando um pouco para chegar, e E49K2Z95 viu por um instante a sua imagem refletida num dos pilares de metal polido que sustentavam o teto alto do saguão. Olhou com atenção e distanciamento para a figura que estava à sua frente e teve a sensação de não reconhecê-la. Quem era aquela jovem que usava um penteado esquisito, que tinha a pele do rosto aveludada como um pêssego, perfeita demais para ser real, olhos delineados por cílios enormes e bem estruturados, a boca pintada com um batom rosa pálido?

Olhou para os lados e pela primeira vez percebeu que as garotas ao seu redor estavam vestidas quase do mesmo modo, apenas alguns pequenos detalhes escapavam daquela homogeneidade que as irmanava e esterilizava. No final das contas, todas eram versões de um mesmo modelo, com variáveis que pareciam ter sido calculadas com base em algoritmos.

Finalmente o seu transporte chegou e E49K2Z95 foi empurrada pelo fluxo de pessoas. Atravessou as portas de vidro que se abriram automaticamente, entrou num vagão e acomodou-se num dos assentos. Tentou se concentrar no que teria que fazer durante o dia, que seria bem longo, pois a rotina de trabalho era de doze horas no mínimo, mas considerando todas as vantagens, não podia se queixar. O seu contrato previa uma pausa de trinta minutos às duas da tarde, na qual poderia ter acesso ao setor da sucursal dedicado ao bem-estar do pessoal, e ali podia escolher entre várias atividades recreativas e tratamentos variados de regeneração. Os funcionários não tinham que perder tempo com a ingestão de alimentos. Tudo o que precisavam para ter uma vida saudável estava contido nas cápsulas que lhes eram distribuídas ao longo do dia e que engoliam sem precisar parar de trabalhar. Os alimentos produzidos nas colônias agrícolas eram transportados para os distritos industriais e passavam por um processo automatizado que os recombinava reduzindo-os ao essencial necessário para manter a vida humana em excelentes condições de saúde. Como a questão da água era muito delicada, para cada funcionário havia um sistema implantado na própria poltrona de trabalho onde era possível urinar, e a urina era automaticamente filtrada, tratada e aditivada e assim ela era conservada num pequeno reservatório, e sugada pelos funcionários em determinadas horas do dia. Outro fator ao qual se dava muita importância naquela empresa era a tonicidade da musculatura e o bom funcionamento das articulações dos trabalhadores. Embora permanecessem praticamente imóveis durante a maior parte do tempo, na mesma poltrona havia um sistema de transmissores que eram aplicados em partes estratégicas do corpo e que distribuíam sistematicamente impulsos elétricos muito eficazes para estimular contrações e distensões da musculatura além de movimentos periódicos das articulações. Nada disso exigia qualquer tipo de esforço do funcionário, que ficava livre mentalmente para concentrar-se em suas atividades de trabalho.

Embora a tecnologia tivesse alcançado um ponto muito avançado de desenvolvimento que permitiu resolver muitas das questões que impediram durante séculos que a humanidade evoluísse efetivamente e tivesse domínio dos seus impulsos bestiais e destrutivos, ainda havia muito a fazer. A mente humana era realmente maravilhosa e algumas áreas de estudo ainda exigiam explorações mais aprofundadas. Aquela sucursal era uma reunião de mentes brilhantes dedicadas a um grande projeto de mapeamento da mente humana, e os progressos obtidos nos últimos anos vinham trazendo benefícios inestimáveis à sociedade. Todos os funcionários que haviam sido recrutados para trabalhar ali eram especiais. Haviam passado por várias seleções e ciclos de aprendizagem, conforme as suas aptidões naturais, e desenvolvido habilidades em áreas específicas do conhecimento nas melhores instituições da Capital.

Os funcionários tinham a oportunidade de passar os seus dias totalmente imersos em questões voltadas à sua área de especialização e trabalhar de forma transversal e interativa para ajudar a resolver problemas para os quais a humanidade sempre buscou soluções. A atividade das suas mentes era potencializada pela interação com máquinas e programas altamente sofisticados, capazes de armazenar uma quantidade inimaginável de dados e clonar os processos mentais dos especialistas enquanto eles exploravam as várias possibilidades de construção de uma nova humanidade. 

E49K2Z95 era especialista em linguagem imagética. Trabalhava com processos de criação e talvez por isso às vezes se sentisse um pouco estranha e tivesse a sensação de não pertencer àquele lugar. Algo dentro dela parecia querer chamar a sua atenção para detalhes da realidade que poderiam conduzi-la por caminhos divergentes. Na verdade este era um desconforto típico de alguns especialistas que trabalhavam com a imaginação. Era um risco calculado pela equipe de controle que monitorava as condições físicas, mentais e psicológicas dos especialistas da sucursal. Infelizmente poderiam surgir alguns sintomas indesejáveis, pois a determinados especialistas não era possível administrar um tratamento padrão de moderação do campo criativo e emocional. E49K2Z95 havia sido avisada sobre alguns efeitos colaterais aos quais poderia estar sujeita, principalmente no caso de projetos que exigiam explorações mais radicais da mente.

- Está tudo bem, tudo sob controle – repetia a si mesma enquanto ajeitava cuidadosamente a peruca no suporte, acomodava-se na poltrona e distribuía os transmissores ao longo do corpo. E49K2Z95 ajustou o coletor de urina, colocou entre os lábios os tubos distribuidores de líquidos e cápsulas, controlou o marcador de temperatura e vestiu o capacete. Fechou os olhos e imediatamente viu projetar-se em sua mente a imagem congelada da cena que estava criando desde o dia anterior.

A cena fazia parte de uma história de ação e um dos personagens em fuga sentia-se acuado à beira de um penhasco. Ele teria que resolver aquela situação rapidamente, antes que o seu perseguidor o alcançasse. Não estava armado e precisava encontrar algum objeto para se defender. O suor brotava em seu rosto e escorria por suas costas, a respiração era ofegante numa mistura de medo e exaustão. Aproximou-se da beira do penhasco e observou o enorme vazio à sua frente. Imaginou quanto seria bom poder voar como aquelas águias que pairavam imperturbáveis no horizonte, perscrutando a terra lá embaixo, a milhares de metros de distância. Sentiu uma vontade irresistível de pular e acabar logo com aquela agonia. Seria uma queda vertiginosa e maravilhosamente libertadora. Voaria por alguns instantes num mergulho vertical que duraria alguns segundos que talvez fossem os mais significativos de toda a sua vida. Arrastou devagar o pé esquerdo até sentir que a ponta perdeu o apoio do chão. Pedregulhos rolaram para baixo e logo se perderam de vista. Bastava um pequeno impulso e tudo estaria acabado. Ele ouviu o barulho de passos se aproximando e instintivamente recolheu novamente o pé para junto de si. O perseguidor estava armado e o fugitivo sabia que em breve estaria liquidado, mas mesmo assim algo muito profundo em sua natureza recusava a solução mais óbvia para o seu problema. Não havia nenhum motivo racional para optar pelo martírio de uma morte lenta e cruel nas mãos do seu algoz, que certamente o torturaria até obter a sua confissão. Por que lutar por uma vida condenada à tortura e à morte? Em que parte abissal de si mesmo aquele pacto do indivíduo com a própria vida se conserva indissolúvel? Por que teimar em continuar existindo daquela maneira? Por quê?

A alguns metros de distância, o algoz encarou o fugitivo por alguns segundos. Segurava uma faca com uma das mãos, mas queria capturar a sua presa viva. Hesitou por um momento ao perceber que o outro estava próximo demais do precipício. Se fizesse qualquer movimento brusco, o fugitivo poderia recuar e cair. Havia também a possibilidade de que ele se atirasse voluntariamente.

O fugitivo percebeu a hesitação do outro em avançar, mas não sabia o que fazer para desfrutar aquela situação. Permaneceu imobilizado e apenas seus olhos moviam-se procurando no rosto do outro algum indício que insinuasse o próximo movimento. Talvez pudesse ganhar um pouco mais de tempo. Lembrou-se de que havia pegado uma pedra e que ainda a segurava numa das mãos. Teria que agir muito rapidamente para conseguir atingir a cabeça do outro sem que ele tivesse tempo para esquivar-se. Mas o outro foi mais astuto e surpreendeu-o. Precisou dar apenas alguns passos para alcançar o fugitivo com uma das mãos. Agarrou o seu braço e puxou-o para junto de si. Mas o fugitivo resistiu à força que tentava arrastá-lo para longe do precipício e deu um forte impulso para trás que fez com que ambos se desequilibrassem na direção do abismo. Seus corpos ainda entrelaçados não encontraram no chão o apoio necessário para evitarem a queda.

Do alto do penhasco, E49K2Z95 observou aqueles dois corpos caírem e tornarem-se dois pontinhos minúsculos a algumas centenas de metros mais abaixo. Abriu os braços e fechou os olhos, consciente de que acima de sua cabeça o céu era de um azul intenso sem nuvens. Uma leve brisa acariciava seu rosto. Lembrou-se de que poderia assumir qualquer forma ali naquela história, pois ela era sua. Poderia transformar-se num pássaro e ensaiar voos rasantes, poderia criar alguém para estar ao seu lado de mãos dadas com ela. Poderia fazer com que essa pessoa falasse coisas que ela queria ouvir e a sensação de que tudo aquilo poderia parecer extremamente real representava uma tentação enorme para ela. Sabendo que a realização daquele desejo teria consequências devastadoras para si mesma e para o projeto, controlou-se mais uma vez e passou a preparar-se mentalmente para encerrar aquela cena e passar para a próxima. Aos poucos a imagem daquele cenário foi ficando menos nítida e ela percebeu que tinha que se retirar dali rapidamente, antes que tudo desaparecesse. Olhou ao seu redor pela última vez e foi aí que reparou na pedra que estava no chão ao seu lado. Era a mesma pedra pontiaguda que o seu personagem havia segurado numa das mãos. Ela não havia imaginado conscientemente que a pedra deveria cair no chão antes que os dois protagonistas caíssem do penhasco. Ficou curiosa e abaixou para pegá-la e observá-la mais de perto. Teve a sensação de reconhecê-la. De fato não era uma pedra qualquer. Havia um desenho em uma de suas faces.

De repente tudo ficou claro para E49K2Z95. Suas memórias começaram a jorrar em sua mente e suas emoções vieram à tona numa fúria irrefreável. Aquela era uma mensagem que ela havia deixado para si mesma num de seus sonhos que, por algum motivo, não havia sido induzido artificialmente. Naquele sonho ela era uma menina pequena e brincava com sua irmã no riacho enquanto sua mãe colhia flores e ervas. O dia estava ensolarado e quente e as duas meninas riam felizes. E49K2Z95 viu aquela pedra debaixo da água e a pegou. Parecia uma pedra que havia visto antes em algum outro lugar. Usou outra pedra para fazer um desenho sobre ela. Era o desenho infantil de uma casa.

Enquanto o corpo de E49K2Z95 se convulsionava sobre a poltrona, o sinal de presença de dejeto para coleta foi acionado. Em breve o corpo seria recolhido e eliminado. Antes que a cena se desvanecesse completamente em sua mente e que ela se desconectasse definitivamente do sistema, E49K2Z95 pulou no vazio com a pedra na mão.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Conversa de Botequim




- Não entendo porque as coisas têm que funcionar dessa maneira comigo. Só pode ser porque sou intransigente demais com os homens. Preciso dar um jeito nisso. Se eu ficar agindo sempre desse modo, vou acabar sozinha. Velha e só, jogada para as traças.
- Ih, Maria Clara, que desespero é esse? Não me venha dizer que se está deixando levar pela crise do “agora ou nunca”. Não caia nessa, é a maior furada! Fazer trinta e cinco anos é uma coisa fantástica, não tem que entrar em crise coisa nenhuma! Vai, ergue o copo aí que nós vamos brindar! Um brinde a Maria Clara, minha amiga querida, linda, maravilhosa, corajosa e independente e que acima de tudo é um amor de pessoa! Tim-tim!
-Tim-tim!
- Eu não quero ver você entrando numas de achar que tem que exibir para o mundo um homem a tiracolo para mostrar que está realizada na vida. Isso não traz felicidade para ninguém! Essa é uma teoria que já foi testada e comprovada durante séculos e séculos, amém. Não jogue fora tudo o que as nossas ancestrais aguentaram para nos fazer entender que esse tipo de coisa não dá certo.
- Tudo bem, Lucinha, mas você sabe que não se trata apenas de querer exibir alguém do meu lado. É solidão mesmo, vontade de ter alguém com quem dividir a cama nos momentos bons e ruins. A dificuldade de encontrar alguém assim vai cansando. O tempo passa rápido… e quando a gente percebe… você não pode negar que com a idade o nosso campo de ação vai ficando cada vez mais restrito. Isso também é real. É um fato comprovado e testado durante séculos e séculos… enfim, envelhecer é uma tristeza.
- Se você prestar atenção no que está falando vai ver que é uma grande bobagem. Veja que incoerência: você quer encontrar alguém, um homem, com quem vai ter uma relação séria, profunda, duradoura, cheia de sentimentos verdadeiros que vão nascendo e ficando mais fortes ao longo do tempo. Você espera tudo desse homem, menos que um dia ele acorde ao seu lado, olhe para você e pense: eu preciso me livrar dessa bruaca, ela estragou com o tempo e eu preciso arranjar uma nova. Tenho razão ou não?
- Hum hum.
- Então, aí é que está a incoerência.
- Não entendi. Desenvolva melhor a ideia.
- Se você focar seu interesse num homem que só gosta de mulheres jovens, é muito provável que ele não seja suficientemente bom para esse tipo de relação que você gostaria de ter porque ninguém fica jovem para sempre! Se um homem não prestar atenção em você por achar que já está meio “passadinha”, é um sinal mais do que evidente de que é um que não vai saber satisfazer você.
- Sim, estou de acordo, só que tudo isso é lógico demais. Gostar de alguém é uma operação que envolve tantas variáveis… não é só a cabeça que conta, o corpo também. Quando o corpo também decide a gente entra num campo onde a lógica não funciona. 
- Funciona sim.
- Não, não funciona. Só funcionaria se eu fosse um robô.
- Robô é? Então vai, fique arrastando a asinha por um bonitão que nem percebe que você existe porque gosta de outro tipo de mulher. O que é que você vai ganhar com isso? Vai tratar o cara como se ele fosse um deus do Olimpo e depois vai querer que ele lhe dê valor?
- E você vai me dizer que nunca fez isso?
- É claro que eu fiz. Você sabe. Por isso mesmo não recomendo a ninguém. Está vendo como é bom amadurecer? A gente tem a chance de parar de ser idiota.
- Então vamos fazer um outro brinde.
- Vamos. Às coisas que ficam melhores com a idade!
- À minha querida amiga Lucinha que finalmente aprendeu a não perder tempo dando valor a quem não dá valor para ela!
- À minha adorável amiga Maria Clara que está ficando menos tapada a cada ano que passa!
- Essa foi sacanagem!
- É verdade! Tim-tim!
- Tim-tim!
- Não quero mais ver você se martirizando por ter encontrado apenas homens com os quais era impossível ter uma relação duradoura. Quando não dá, é porque não dá mesmo. Não é culpa sua. Nunca duvide dos seus instintos. Se achou que deveria pôr um fim na relação, é porque tinha razão de pensar assim e ponto final. Se fizer um flashback de todos os casos que você teve nesses últimos anos vai ficar claro que sempre tomou a decisão certa. Você quer ver como eu tenho razão? Desafio você a dizer o nome de um dos seus ex que poderia ter dado certo se você não fosse tão exigente.
- Hum, deixe-me ver. Espere um pouco. Não fique aí me encarando com esses olhos arregalados, senão eu não consigo me concentrar. Pronto, olha só, o João Augusto. Você se lembra dele? Era tão meigo.
- Sério? Você está falando daquele João Augusto? Justo dele você foi lembrar? O cara era muito estranho.
- Ele tinha algumas esquisitices, mas quem não tem? Eu não deveria ter terminado tudo daquela maneira brusca, sem ter dado pelo menos uma chance a ele. Todo mundo pode se transformar, amadurecer. Com o tempo ele poderia ter aprendido a gostar mais de mim por aquilo que eu era e deixar para trás aquelas ideias meio furadas do que ele queria que eu fosse. Eu também poderia ceder um pouco e ir mudando com a convivência, sabe, poderia ter rolado uma adaptação natural de um lado e do outro.
- Maria Clara, minha querida, para satisfazê-lo você não teria que mudar em algumas coisas, teria que se virar do avesso. Ele não tinha nenhuma disposição para aceitar qualquer coisa que saísse do esquema preestabelecido. Lembra de como não perdia nenhuma oportunidade para torrar a paciência de todo mundo com aquele blá blá blá sobre a importância da família, filhos, momentos de ternura no lar, etc.? Na dose certa, são coisas até bonitinhas de ouvir, mas você tem que concordar comigo que ele exagerava. Não podia ver um pai carregando um pirralho que já ficava todo ouriçado. Era óbvio que o cara tinha uma fixação pelo assunto. Eu ficava em dúvida se por trás daquele papo de família rolava algum tipo de interesse verdadeiramente humano ou se o que importava mesmo era encontrar um modo de propagar seus próprios genes, como no reino animal, sabe como é? Onde macho dominante é aquele que procria. Dava a impressão de que, para ele, ter um filho era um modo de afirmar isso para o mundo. Parecia que nessa história toda você era só um meio para que ele atingisse os seus objetivos. Ele não estava muito preocupado em saber quais eram as suas prioridades. Era tão tapado que nem percebia quanto isso jogava água fria na relação de vocês.
- Mas…
- Não, não. Isso você não pode negar. Só eu sei o quanto você se queixava: “está tudo meio morno entre nós, sem muito tesão”. Como é que hoje você vem dizer que poderia ter dado certo?
- Lucinha, tesão não é tudo numa relação, você sabe disso. Importante mesmo é o afeto, o compromisso, o respeito.
- Calma lá. Tudo isso pode funcionar quando o casal já viveu uma vida inteira junto, mas entre dois namorados, tenha dó, é insustentável. Você não ia aguentar.
- Mas eu poderia ter pelo menos dado uma chance a ele! A paixão poderia voltar depois de algum tempo.
- Não, não ia voltar. Ele era um caso perdido. Bebe, senão o chope vai esquentar.
- Você não conhecia bem o João Augusto. Ele tinha um coração muito bom.
- É… era ótimo mesmo…
- Era sim. Se ele tivesse tido só um pouco mais de tato... não sei não, acho que nós ainda estaríamos juntos.
- Mesmo depois do que ele fez?
- E o que foi que ele fez, Lucinha? Na verdade, foi só um presentinho… A intenção não era ruim.
- A intenção ERA ruim.
- Pelo menos uma parte não era. Com um pouco mais de compreensão daria para entendê-lo, afinal, nós já estávamos juntos há mais de um ano e meio. Ele só quis demonstrar que estava pronto para dar o próximo passo. Quando me deu o embrulho cheio de fitinhas sem que fosse nenhuma data especial, pensei comigo mesma “que sorte eu tenho por ter encontrado um cara romântico, atencioso”.
- Mas aí...quando tirou o presente do saquinho…tchan tchan tchan tchan tchan…
- Meu mundo caiu.
- Até hoje eu não entendo como ele pôde dar de presente para a namorada o tal sutiã gigantesco de amamentação.
- Na hora eu não entendi direito se aquilo era sério ou uma brincadeira de mau gosto, mas vendo que ele não estava rindo da minha cara, me bateu uma tristeza...
- Ele não estava brincando.
- Não, nem um pouquinho. O pior é que ele continuava a me fixar com um olhar cheio espectativas, sabe, com as sobrancelhas erguidas e um sorrisinho meio contido, esperando que eu tivesse uma reação completamente diferente.
- Nas suas fantasias doentias ele deve ter imaginado você se desmanchando de emoção e enchendo ele de beijos por ter ganhado uma coisa tão linda!
- Não entendeu por que eu quis devolver o sutiã nem porque eu peguei minhas coisas depressa e saí da casa dele para nunca mais voltar.
- Que presentinho horrível…
- E ainda por cima, ele era enorme! Minha vó tinha um daquele tamanho, mas sem as abas com ganchinhos de abrir e fechar na frente de cada bico.
- Você não se sentiu como se fosse uma vaca holandesa que já estava meio atrasada para começar a desempenhar a sua função suprema?
- É, acho que me senti exatamente assim.
- E como é que hoje você vem me dizer que poderia ter passado por cima de tudo disso?
- Ok, eu tinha motivos para não ter gostado da surpresa, mas, pensando bem…eu não precisava ter sido tão intransigente. No dia seguinte ele me ligou de manhã, de tarde e de noite e eu me recusei a responder todas as vezes. Foi assim a semana inteira, até o dia em que ele ficou plantado na saída do meu trabalho e eu não tive escapatória. Ele me pediu desculpas por ter sido precipitado, disse que fez aquilo porque achou que era um modo original de demonstrar o quanto eu era importante em sua vida, mostrou-me o anel de noivado que ele ia colocar no meu dedo logo depois de ter dado o tal presentinho se eu não tivesse saído correndo.
- Ah, é mesmo, ele tinha comprado um anel de noivado. Que gênio…
- Sim, e era tão bonito… Enfim, continuou dizendo que não tinha nenhuma intenção de me pressionar, que se havia feito planos para nós dois era porque me amava. Ele parecia tão normal, sensato e calmo que eu quase cedi. Quase. Mas uma vozinha aqui dentro me dizia para não ceder, que não era possível ele me amar e ao mesmo tempo não ter a menor noção daquilo que era importante para mim. Com o passar do tempo isso ia acabar mal. Então, dei ouvidos para a tal vozinha e...fiquei sozinha. Se pelo menos...
- Se pelo menos o quê? Deixe pra lá, amiga. Não tem do que se arrepender. Você se livrou de uma boa enrascada.
- Você acha mesmo que não fui precipitada demais? Sei lá, a nossa geração cresceu ouvindo que se as mulheres derem muito mole para a piração dos homens, acabam não vivendo as próprias pirações e depois piram de verdade.
- Vai por mim, amiga. É assim mesmo. Ao lado do João Augusto você teria no máximo cinco anos de sanidade mental. No máximo. E mesmo assim, os últimos três você já passaria brigando com a sua imagem no espelho porque ia achar que tinha uma estranha invadindo a sua casa.
- Não, eu não chegaria a tanto. Sou mais forte do que você pensa.
- Não subestime o poder de um martelo pneumático tentando enfiar na sua cabeça todos os dias uma ideia de felicidade que não tem nada a ver com você. Depois, tem outra. Você não estava mais apaixonada por ele, não valia a pena perdoar. Seu Manoel, traz mais dois chopes aqui pra nós, por favor?
- Tesão não resolve tudo, Lucinha.
- Não resolve tudo, mas sem, tenha dó, não dá pra encarar.
- Vamos fazer mais um brinde com esta maravilha que acabou de chegar estupidamente gelada. Vamos brindar ao tesão que ilumina a nossa vida!
- Que as nossas vidas sejam plenas de luz! Tim-tim!
- Tim-tim!
- Então, vá em frente, Maria Clara. Vamos exorcizar todos esses demoniozinhos do arrependimento que ficam aporrinhando a sua vida. Diga-me o nome do segundo injustiçado da sua lista.
- Vamos lá. Deixe-me ver…O Maurílio. Lembra dele?
- Claro. Era bonitão, meio coroa, mas bem conservado.
- Hoje você está impossível mesmo, heim Lucinha? Ele não era coroa coisa nenhuma, era só alguns aninhos mais velho do que eu.
- Como assim? Alguns não, muitos! Ele não tinha uma filha que era quase da sua idade!
- Não, não era. Eu estava com trinta e um anos, e ela, com dezesseis quando a gente se conheceu. Chamava-se Ana Luísa e era uma garota muito legal, a gente se entendia muito bem. Ele teve essa filha quando ainda era muito jovem, por isso não era tão mais velho do que eu.
- E por que você acha que o pobre Maurílio foi mal compreendido e merecia uma segunda chance?
- O começo foi maravilhoso, paixão avassaladora. Já na primeira noite em que saímos juntos rolou de tudo, do bom e do melhor. Como ele era gostoso! Tudo nele me deixava extasiada, sua boca, seu cheiro, sua voz. Quando estava de bom humor não poderia existir companhia melhor que a dele. Ríamos muito de nós mesmos, da vida, do mundo inteiro. Só havia um probleminha: ele tinha horror a compromissos.
- Em poucas palavras, era um garanhão.
- Não é bem assim. A coisa toda era bem mais complicada.
- Ele não era mulherengo?
- Não, quando o Maurílio estava comigo, não ficava caçando outras mulheres.
- Mas ele não era professor universitário? Todo dia rodeado por garotinhas novinhas e gostosinhas que ficavam jogando charme para cima dele? Ele não ficava todo assanhado? Você tem certeza de que não se aproveitava da situação? Certeza absoluta?
- Lucinha, para ser sincera, eu não ficava pensando no assunto para não me atormentar. Ele devia gostar muito de ter todas aquelas franguinhas manifestando todos os dias a sua profunda, aliás, bem profunda admiração pelo professor mais sábio e gostosão da face da terra. Mais por vaidade, sabe. Ele não teria paciência para sair com nenhuma delas, a não ser que fosse só para transar. Mas você sabe como são as meninas nessa idade. Muitas ainda acreditam naqueles sonhos bobocas da adolescência, você entende o que eu estou querendo dizer, não entende?
-Sei. Você está insinuando que ele corria o risco de ter que aguentar muita encheção de saco para pouca transa. Mas, na verdade, você está se referindo a como nós éramos aos dezoito anos. Hoje em dia as meninas novinhas não são mais assim. São bem mais espertinhas do que nós éramos. Bem mais descoladas. E também aprendem cedo que às vezes é preciso ser bem casca-grossa para encarar esses meninos de hoje que cresceram vendo pornografia e que pensam que as mulheres modernas são a evolução das bonecas infláveis primitivas.
- Você tem razão, mas eu conhecia o temperamento do Maurílio e sei que ele não teria paciência para se envolver com uma menina assim tão novinha. Isso para não falar da dor de cabeça que ele ia ter com o pessoal da faculdade. Posso estar enganada, mas as coisas deviam rolar mais ou menos por aí. Só sei que a gente se entendia tão bem na cama que eu não tinha motivo nenhum para desconfiar ou reclamar. Nem ele. E havia um outro fator importante. Eu me esforçava muito para ser mega compreensiva. Como eu sabia quanto havia sido difícil o seu processo de separação da mãe da Ana Luísa, eu fazia de tudo para não tocar em qualquer assunto que envolvesse compromisso, planos para o futuro, expectativas. Passamos meses numa espécie de estado de graça, deixando as coisas irem acontecendo naturalmente. A relação foi ficando cada vez mais íntima, eu já havia ocupado uma parte do seu guarda-roupa com as minhas coisas. Nos finais de semana, cozinhávamos juntos, e ele até que era bem informado sobre culinária. Fazia uns pratos fantásticos, tudo regado a vinho e azeite. Aprendi uma porção de coisas com ele. Quando a Ana Luísa vinha visitá-lo, víamos filmes mergulhados nas almofadas do sofá maravilhoso que ele tinha na sala. Inventávamos maratonas intermináveis que começavam de tarde e só acabavam de madrugada. Parávamos de assistir só para comer. Ficávamos o dia inteiro de pijama. Era muito legal. Uma vez fomos todos juntos passar um feriado prolongado numa pousadinha de frente para uma praia bem tranquila. Numa tarde, o Maurílio estava tirando uma soneca e eu fiquei conversando com a Ana Luísa debaixo de uma sombra na varanda. Ela falou um montão de coisas sobre a vida dela e, a um certo ponto, me contou que tinha levado um baseado e perguntou se eu queria fumar com ela. Perguntei se o Maurílio não se importava e ela respondeu que ele não gostava muito, mas não chegava a ser contra. Ela só tinha que continuar indo bem nos estudos e não se envolver com gente da pesada. A tarde estava tão gostosa, todos tão relaxados, então eu topei. Fomos até o quarto dela e fumamos como boas amigas. Fazia tanto tempo que eu não fumava, que o bagulho fez o maior efeito. Quase passei mal de tanto rir. Saímos para dar uma volta e andamos quilômetros com os pés na água. Uma paz total. Na hora do jantar, o efeito já havia diminuído bastante e o Maurílio só desconfiou porque nós duas nos comportamos como dois gafanhotos que tinham acabado de atravessar o deserto e praticamente devoramos a comida toda que tinham colocado sobre a mesa, e ainda pedimos para repetir a sobremesa. Mais tarde ele quis conversar comigo. Eu contei tudo e ele pareceu levar a coisa numa boa. Mas, a partir daquela viagem, algo começou a mudar. Eu percebi que já não tínhamos mais a mesma leveza para lidar com as nossas coisas. Eu tinha medo de tocar no assunto e forçar a situação. Com ele eu tinha sempre que pisar em ovos quando se tratava de falar sobre o nosso relacionamento. Sabe quando o envolvimento atravessa um certo limite e começa a exigir mais de cada um? Aquele lance da praia deixou claro que não dava para ter uma relação em família sem ser uma família. As coisas começariam a ficar confusas demais se os papéis de cada um não ficassem mais claros, e era justamente isso que ele queria evitar. Então, chegou o dia em que eu fiquei de saco cheio por não poder cobrar nada dele.
- Olha só, conversa vai, conversa vem, e nós já comemos tudo. Seu Manoel, traz mais uma porção de mandioca frita pra gente, por favor? Eu sei como é isso, Maria Clara. Você se lembra do Otávio? Eu tinha até medo de dizer qualquer coisa para ele que pudesse deixá-lo contrariado. Se isso acontecesse ele ficava tão mal-humorado que azedava tudo o que estivesse ao redor. Várias vezes a gente foi embora mais cedo de algum lugar porque ele cismava que eu estava fazendo alguma coisa de propósito, só pra contrariar. E quando ficava com ciúmes? Até do ar que eu respirava ele tinha ciúmes, bastava eu fazer uma cara de quem estava achando o ar gostoso.
- Ah, eu me lembro. Era impressionante. Coitado. Sofria da Síndrome do Chifre Imaginário. Doença muito grave. É por isso que na hora de falar o nome dele eu sempre errava e acabava chamando ele de Otário.
- Você, hem? Essa sua cara de boazinha é pura propaganda enganosa. Nunca perdeu a oportunidade de zoar os meus namorados dando apelidos engraçadinhos pra eles, não é, Maria Clara?
- Mas eu não faço isso por maldade. Eu só dou os apelidos quando vejo que os caras já começaram a pisar na bola com você. Eu faço isso para desdramatizar, você sabe. É melhor rir do que chorar.
- É, eu sei amiga, eu sei. No fundo eles mereciam. Então, vamos voltar ao seu caso com o professor Maurílio Gostosão. Continue.
- Tivemos uma discussão bem séria. Eu disse que não conseguia estar de verdade com alguém sem criar nenhum tipo de expectativa sobre a relação. Era simplesmente impossível para mim. Tudo bem, ele podia pensar que eu tinha sido incorreta com a Ana Luísa, que deveria não ter tratado a menina como uma amiga e que o certo seria manter uma postura mais responsável, mas quem foi que nos aproximou daquela maneira? Se ela me via como uma amiga era porque ali todos nós nos comportávamos como amigos. Eu disse a ele que se eu tinha errado, ele também. Ele era o pai da menina e se estava envolvido com alguém caberia a ele definir essa relação para a própria filha dizendo que não se tratava de mais uma amizade colorida, um casinho qualquer que iria passar logo, que sendo assim eu não poderia tratá-la de igual para igual porque eu não era só mais uma garota do papai, mas alguém que podia e devia preocupar-se com ela de verdade! Ele tinha que admitir que tínhamos uma porra de compromisso! Ele tinha que admitir, não dava mais para fazer de conta que não representávamos nada um para o outro além de uma boa bimbada e momentos de curtição.
- E ele?
- Conforme fui falando tudo isso, o rosto dele foi se transformando. Ele parecia estar vendo a materialização do capeta na sua frente. Realmente aquele homem tinha problemas sérios com essa coisa de compromisso, sei lá, algum tipo de trauma, de bloqueio. Deve ter rolado muito conflito com a mãe da Ana Luísa. Só pode ter sido isso. Dava pra ver na cara dele que estava perturbado. Mas, no final, ele admitiu que eu tinha razão. Eu passei a mão na cabeça dele e toda aquela tensão emocional resultou numa vontade imensa de nos aproximarmos. Fizemos amor de um jeito diferente. Não sei explicar. Estávamos mais íntimos. Além do habitual tesão, havia uma coisa a mais que finalmente podia ficar solta entre nós. Pude sentir que ele era uma pessoa vulnerável e tenho certeza de que o amei naquele momento.
- E depois?
- Depois a coisa foi se complicando. Ele tinha momentos de tristeza cada vez mais frequentes, começou a demonstrar inseguranças em relação a mim, a manifestar preocupações a respeito da diferença de idade, a falar mais sobre suas frustrações, seus medos em relação ao futuro, seus dias de solidão longe da família quando se separou. Contou-me que fez anos de terapia antes de conseguir sair da crise. Fez um pacto consigo mesmo e viveu os últimos anos de um modo bem tranquilo, mas depois de tudo o que tinha rolado entre nós, o seu equilíbrio havia sofrido abalos e muitas coisas estavam vindo à tona, coisas difíceis de lidar. Decidiu voltar para a terapia. Sabe, pela primeira vez na vida eu me vi diante de um homem de verdade, e acho que me assustei. Nós, mulheres, acostumamos a dizer que os homens não são muito bons para lidar com os nossos sentimentos, mas devo confessar que não é fácil lidar com os sentimentos de um companheiro sensível ou sensibilizado ou, sei lá, nu, sem aquela porra de armadura que todo mundo pensa que tenha que revestir a masculinidade. É duro ver que um homem também é frágil emocionalmente. Muitas idealizações que eu nem sabia que tinha conservado dentro de mim começaram a cair por terra e eu fiquei confusa. Não sabia se eram coisas que realmente deveriam ficar para trás ou se, na verdade, eu estava decepcionada com o Maurílio. Um dia me ocorreu essa dúvida, como um grãozinho de areia que entra embaixo da unha e fica ali, incomodando. Comecei a olhar para ele de outra maneira e me dei conta de que eu não era obrigada a atravessar aquela crise com ele. Eu me cansei. Sabe quanta energia às vezes é preciso doar para a outra pessoa sem garantia alguma de receber alguma coisa em troca além de uma pequena esperança de que as coisas um dia vão melhorar? Foi nesse ponto que tudo acabou. Eu poderia ter feito mais por ele, mas não quis.
- Minha querida, naquele momento o Maurílio era um caso complicado demais para você. Homem mais velho, divorciado, com uma filha adolescente… uma história no passado difícil de superar…
- Eu sabia de tudo isso quando forcei a barra para que ele levasse mais a sério a nossa relação. Se eu tivesse sido menos intransigente…
- Não importa. Você fez muito bem em exigir que ele assumisse uma posição. Se ele queria se comportar como um adolescente, por que então colocou a filha no meio dessa história? O que ele estava pensando que ia acontecer? Tudo bem, você também foi bem inconsequente. Não precisava ter fumado um baseado inteiro com a menina, né? Ela era menor de idade… você sabia muito bem que esse tipo de coisa podia dar confusão.
- É, eu sabia. Reconheço que pisei na bola. Vendo as coisas hoje, nem sei dizer por que fiz aquilo. Mas naquelas circunstâncias… você não tem ideia de quanto a Ana Luísa parecia ser madura. Ela era tão segura de si! Além de ser muito boa de papo. Trocamos altas ideias.
- Imagino, principalmente depois de terem feito revezamento com a tocha olímpica.
- Põe olímpica nisso.
- Sua doida.
- Já faz tanto tempo que isso aconteceu. Quatro anos. Depois daquele episódio na praia eu nunca mais fumei, sabia?
- Eu não fumo desde os tempos da faculdade. Desencanei completamente. Eu bem que podia voltar a fumar de vez em quando. Ia ser bom pra alternar um pouco com o chope. Em vez de engordar, emagrece.
- Opa, tá vendo? Essa já seria uma ótima vantagem. Mas…Lucinha, por que nós estamos falando sobre isso?
- Sei lá, a conversa derivou. Você estava falando sobre o seu caso com o…
- Maurílio.
- Isso, com o Maurílio. Você estava se recriminando por tê-lo deixado sozinho depois de bagunçar toda a vida dele.
- É. Às vezes eu penso que fui cruel, fria e egoísta. Se tudo acontecesse hoje, eu agiria de um modo totalmente diferente. Seria mais humana.
- Você está falando isso porque não ficou anos ao lado dele absorvendo todas as suas neuras e esperando que ele melhorasse e parasse de ser sempre o centro das atenções. Você foi à luta, correu atrás das coisas que considerou importantes.
- Você não acha que faltou amor?
- Se faltou é porque você não tinha para dar naquele momento. Não adianta dizer que agora tudo seria diferente. O momento já passou, acabou. Você viveu a sua vida do jeito que escolheu viver.
- Sabe, não faz muito tempo, a gente se encontrou na rua. Por acaso. Ele estava acompanhado. Caminhava com uma mulher que parecia ser mais velha do que eu, mas bem elegante.
- Eles eram amigos ou estavam juntos mesmo?
- Juntos. Abraçados. Ele foi muito cordial, como sempre. Fez as apresentações, me perguntou como eu estava, o que eu estava fazendo. Depois que nos despedimos, fiquei sentindo uma coisa estranha. Senti saudades dos nossos bons tempos. Se ele estivesse sozinho naquele dia eu o teria convidado para tomar um café.
Mas a fila anda, Maria Clara. Vai ficar choramingando por causa do Maurílio ou vamos fazer o brinde liberatório?
- Brinde.
- Então, vamos brindar… à felicidade do Maurílio e ao seu novo amor! Vai, não faz essa cara azeda. Levanta o copo e brinda com vontade!
- Não dá para tirar a segunda parte?
- Não, não dá. Você quer se liberar ou não?
- Tá bom. Fala de novo.
- Um brinde à felicidade do Maurílio e ao seu novo amor! Tim-tim!
- Tim-tim!
- Agora vamos passar para outro caso. Tem mais algum aí na sua lista?
- Tem, tem sim. Mas deste você não vai gostar.
- Coragem amiga, vira o copo e desembucha. Vamos pedir uma porção de batatinhas?
- Pode pedir.
 - Seu Manoel, traz mais dois chopes pra nós, por favor? E uma porção de batatinhas. Então, Maria Clara, de qual nome eu não ia gostar?
- Adivinha.
- Não…não pode ser esse aqui que eu estou pensando. Você não teria coragem de defender esse cara na minha frente.
- Sinto muito amiga, mas é dele mesmo que eu estou falando. Do Alceu.
- Mas como é possível se o cara era o maior boçal que eu já encontrei em toda a minha vida? Você esqueceu do que ele fez com você? E comigo? Eu convidei o cara para jantar na minha casa e ele teve a coragem de me criticar na frente dos meus amigos dizendo que eu deveria ficar quieta porque não entendia nada do assunto. Que ódio! Como ele era inflado! Um perfeito imbecil!
- Calma, Lucinha! Não vai brigar comigo de novo por causa dele, vai? Eu sei que é difícil, mas me deixe continuar. Eu quero falar sobre o Alceu porque eu preciso me liberar dele também.
- Tá bom. Se você insiste… vá em frente.
- Eu o conheci numa exposição de um fotógrafo muito bom. As fotografias eram maravilhosas.
- Eu já ouvi essa história.
- Não importa, eu preciso começar desde o começo, senão não vou até o fim. Quando eu entrei numa das salas da exposição, o Alceu estava sentado num banco de frente para uma imagem em preto e branco. Era um nu artístico, de mulher.
- Obviamente.
- Mas não era uma imagem erótica. O fotógrafo havia conseguido captar algo muito especial naquela mulher.
- Tem certeza de que o Alceu não estava sentado ali batendo uma bronha?
- Pare com isso, Lucinha. Deixe-me terminar. É uma lembrança muito bonita que eu guardo com carinho. A foto era de uma mulher madura, na casa dos cinquenta anos. O cenário parecia ser um quarto desses bem tradicionais. Ela estava de pé, em posição quase frontal, levemente virada de lado. Apoiava uma mão sobre o tampo de mármore de uma penteadeira antiga, repleta de objetos, perfumes, maquiagens, cremes, joias. No fundo havia um espelho que numa parte refletia a sua imagem nua e na outra estava semicoberto por um tecido de tramas abertas que deixavam transparecer o fundo. Ela olhava diretamente para a câmera e a luz do ambiente deixava bem evidentes as linhas fortes que marcavam o seu rosto. Ela tinha cabelos grisalhos que chegavam à altura dos ombros, e estavam ligeiramente despenteados. Seus olhos eram escuros e profundos. Seu olhar era de uma intensidade impressionante. Parecia que encerrava segredos muito antigos, muito mais antigos que ela. O seu corpo era belo, sensual, mas a sua beleza não tinha nada a ver com os padrões que estamos habituados a ver reproduzidos na mídia. Ela parecia exalar por todos os poros uma dignidade que fazia a sua nudez se tornar nobre, quase divina. Enfim, aquela imagem me causou tanto impacto, que eu fiquei meio hipnotizada. Perdi a noção do tempo. Eu simplesmente esqueci do resto da exposição e fiquei ali parada olhando para ela. Então o Alceu veio falar comigo.
- Aí ele disse para você sair da frente porque estava poluindo o seu campo visual e também porque você não entendia nada de história da arte.
- Não, nada disso. Ele se aproximou e me disse que eu poderia sentar no banco se quisesse. Eu agradeci a gentileza e a minha voz saiu tremida. Ele percebeu que eu estava bastante emocionada. Perguntou se eu queria um lencinho de papel. Eu aceitei. Ele falou alguma coisa engraçada para me tirar daquele clima dramático, eu acabei rindo. Começamos a conversar e depois fomos tomar um café. Trocamos números de telefone. Fizemos alguns programas juntos e tudo estava fluindo tranquilamente, mas só na base da amizade. Tínhamos muitas coisas em comum.
- Eu posso imaginar. Mas só você sabia disso, né? Porque ele falava o tempo todo e você só escutava. O típico egocêntrico.
- Não era bem assim. Ele me escutava. Na intimidade ele era atencioso. E muito delicado, também.
- Então ele tinha dupla personalidade, só podia ser.
- Um dia ele me convidou para irmos ao seu apartamento. Ele queria me mostrar o seu ateliê. Fiquei encantada com seus trabalhos, eram realmente muito bons. Pena que ele só podia pintar nos momentos de folga ou durante a noite. Para sobreviver, trabalhava para agências publicitárias. Mostrou-me alguns dos seus trabalhos gráficos, algumas revistas nas quais eles haviam sido publicados, tudo muito bacana, refinado. Passamos horas ali, conversa vai, conversa vem. Então anoiteceu e ficamos com fome. Ele me perguntou se eu preferia jantar fora ou se a gente podia pedir alguma coisa para comer ali mesmo.
- Aí você preferiu ficar em casa e…foi comidinha também.
- Calma. Tudo aconteceu bem devagarinho, sem pressa. Ele gostava de preparar bem o clima. Depois que a gente terminou de jantar, ele me perguntou se podia fazer um retrato meu. Eu fiquei um pouco surpresa, mas concordei. Ele colocou uma música instrumental, pegou o bloco de papel, uns lápis e começou a me desenhar ali mesmo onde estávamos, na sala, sentados sobre o tapete ao redor da mesinha de centro. Pediu para eu desnudar o colo, depois os seios, depois tudo. Desenho vai, desenho vem… Passamos aquela noite toda juntos, e mais tantas outras.
- Por quanto tempo você aguentou o Alceu?
- Quase um ano.
- Fique contra a luz para eu ver se ainda dá para enxergar a sua auréola de santa.
- Sua boba, eu não tenho nada de santa. Eu só fiquei com o Alceu por todo aquele tempo porque ele sabia muito bem como me tirar do sério, em todos os sentidos. E a gente se encontrava sempre na casa dele. Era como se eu fosse mantida em cativeiro por um maníaco que tinha uma curiosidade infinita e queria descobrir de quantas camadas eu era feita. E ele tinha um talento inexplicável para atravessar cada uma, até conseguiu ir bem fundo. Eu não tinha defesas. Ele gostava de experimentar. De me experimentar. Chegamos a um ponto em que eu me tornei completamente dependente dele.
- Tem certeza de que ele não te drogava?
- Ele era a minha droga. Mas isso só acontecia enquanto estávamos fechados na sua alcova. Se saíssemos de lá, era como se o encanto se quebrasse. Depois de tudo o que a gente vivia lá dentro eu esperava que quando a gente estivesse fora, em meio a outras pessoas, ele reservasse para mim pelo menos uma certa distinção, sei lá, eu não pretendia muita coisa, só um pouco de…cuidado. Quando alguém quer bem outra pessoa é normal tratá-la com um certo carinho, não é? Mas diante dos outros parecíamos duas pessoas que tinham só uma relação ocasional. Claro, fazíamos programas juntos, você se lembra. Frequentávamos alguns amigos de um e de outro, mas ele nunca me apresentou a ninguém como se eu fosse uma pessoa realmente especial nem impôs qualquer tipo de freio ao seu ego para não arranhar a nossa relação. Aliás, ele era bem descuidado… Perdi a conta das vezes em que ele me deixou de lado por ter encontrado alguém mais interessante com quem conversar a noite inteira. Nem sei porque ele me levava junto em certas ocasiões. Às vezes eu me sentia como aquelas ajudantes de mágico que só estão ali para preencher um pouco o palco. Em público, ele gostava de ser o centro das atenções. Adorava mostrar o quanto era brilhante, espirituoso. Além disso, eu tinha que respeitar os seus períodos de reclusão, nos quais ele não queria ver ou falar com ninguém. Nem o telefone ele atendia. Ficava trancado no seu casulo e pedia para eu não incomodar. Eu poderia estar morrendo, mas ele não queria nem saber. Uma vez eu fui parar no hospital por causa de uma intoxicação alimentar, e ele só ficou sabendo dias depois. Então, como se nada tivesse acontecido, quando terminava o seu período de reclusão, ele me procurava, e só de ouvir a sua voz eu já sabia que aceitaria passar por tudo aquilo de novo. E toda vez eu achava que valia a pena, porque eu ansiava desesperadamente por aqueles momentos e não aguentava mais a abstinência. Quanto mais ele demorava, mais eu ficava vulnerável. Eu me sentia um trapo. Totalmente suscetível às suas vontades. Ele era um vício. Estava acabando comigo.
- Uma droga de homem.
- Uma droga bem forte de homem.
- Agora eu quero saber porque você o colocou nesta lista. Como é possível você pensar que foi intransigente com alguém que tratava você desse jeito?
- É por causa de uma coisa que eu fiquei sabendo.
- Que coisa?
- O Alceu se suicidou, Lucinha.
- O quê?
- É isso mesmo.
- Quando aconteceu?
- Não faz muito tempo. Depois que eu desisti dele, fiz de tudo para não encontrá-lo de novo, com medo de ter uma recaída. Nunca mais nos vimos. Passaram-se meses. Mas ele não fez isso por minha causa. Um amigo dele me contou. Ligou para perguntar se eu queria ir ao enterro.
- E por que você nunca falou sobre isso comigo?
- Eu tô falando agora. Não sei por que, mas eu só consegui falar disso agora.
- Que merda, Maria Clara, eu sinto muito.
- Eu também.
- E você ficou sabendo por que ele fez isso?
- Esse amigo dele não esclareceu muita coisa. Só disse que ele deixou algumas coisas escritas num bilhete meio confuso. Uma dessas coisas era para mim. Ele queria que eu soubesse que nada do que deu errado entre nós ou na vida dele foi por culpa minha, que a responsabilidade era só dele porque o amor era um sentimento que não fazia parte da sua natureza.
- Que triste.
- Pois é.
- Você foi ao enterro?
- Não tive vontade.
- Você colocou o Alceu na lista só para me contar o que aconteceu?
- Acho que sim. Eu não sabia como começar. Desculpe, Lucinha…Eu não queria ser uma amiga assim tão mala... a gente saiu para se divertir e…
- Tá de brincadeira? É lógico que você tinha que me contar, quanto tempo isso ia ficar guardado aí dentro? Esse tipo de coisa acaba virando doença.
- É, já estava difícil não dividir essa história com você. O Alceu era terrível mesmo, sempre foi. Do paraíso ao inferno num piscar de olhos. Viver perto dele era como subir num elevador que você sabe que vai despencar do último andar. Ele não era normal, Lucinha. Ele tinha algum tipo de problema sério.
- Ele era um caso clínico, sem dúvida.
- E como eu pude não perceber que as coisas estavam nesse ponto?
- Não foi culpa sua, Maria Clara. Você estava envolvida demais, não tinha condições de avaliar.
- Eu sei, mas era óbvio que ele não estava bem…todos aqueles períodos em que não queria ver ninguém. Eu poderia ter insistido, feito alguma coisa. Como eu pude ser tão cega?
- Ele fazia você de gato e sapato. Não dava para enxergar praticamente nada naquela situação. A única saída foi se afastar. Você fez o que deveria ter feito. Não tem cabimento querer se responsabilizar pela loucura dele. Eu não sei de onde vem essa mania que a gente tem de pensar que pode resolver tudo. Você não é a mulher-maravilha e não tem superpoderes, entendeu bem? Não tem, não adianta chorar. Vai, deixe isso passar. Chega de se martirizar. Pega esse guardanapinho aqui.
- Eu não vou mais chorar pelo Alceu. Chega, já chorei demais.
- Seu Manoel, traz mais dois chopes aqui pra gente, por favor! É isso aí, amiga. Agora passa o papel embaixo dos olhos porque borrou um pouquinho.
- Saiu?
- Saiu.
- Tem certeza de que não estou com cara de zumbi?
- Não, não. Tá linda.
- Olha aqui, mais dois chopes no capricho para as meninas! Esse docinho também é pra vocês, por conta da casa.
- Seu Manoel, muito obrigada! O senhor é mesmo um amor de pessoa!
- É verdade, Maria Clara. Como é que a gente ia conseguir sobreviver sem o Seu Manoel? Não ia dar. É importante saber que toda vez que a gente vier aqui, vai encontrar o senhor sempre na retaguarda, dando o maior apoio. Quantas vezes já viu a gente rir e chorar nesse balcão? Perdeu a conta, né? Eu também. O senhor merece até um monumento pela paciência.
- Que nada. Vocês não dão trabalho nenhum. Estão sempre em duas e ficam horas aí conversando e nunca, nunca me torraram a paciência. Ao contrário de muito marmanjo que senta aí, bebe até cair no chão ou então me pega emprestado como amigo e aí...eu tenho que ouvir cada coisa…vocês nem imaginam. Haja paciência!
- Então, vamos fazer um brinde ao Seu Manoel, o melhor dono de boteco do mundo! Que o senhor sempre esteja conosco!
- Amém. Tim-tim!
- Tim-tim!