domingo, 3 de setembro de 2017

A Soberba

(capítulo extraído do livro de contos "Não julgarás - Valeriana e outras sete", lançado pelo KDP em fevereiro de 2016)

Soberba: palavra que provém do latim superbia. Pecado capital definido comumente como a “estima excessiva da própria pessoa”. É também identificado como o desejo destorcido de grandeza. Gera vaidade, orgulho, arrogância, ambição, presunção, vanglória, gabolice, hipocrisia, ostentação, prepotência, desobediência, egocentrismo. Sinônimo: autoimagofobia: (auto + imagem, do lat. imago + -fobia). É um transtorno psicológico provocado por um desequilíbrio no processo de formação e propagação da própria imagem desencadeado por um medo patológico de não ser aceito em um determinado meio devido a uma supervalorização desse meio, e de sua hostilidade, e a uma desvalorização da sua identidade mais profunda. Pessoas que sofrem deste transtorno dedicam grande parte da própria energia à criação de artifícios que, segundo a visão distorcida que têm de si mesmas e dos seus semelhantes, são o único modo para conseguirem ser merecedoras de estima e admiração. No estágio mais agudo da doença, ocorre uma ruptura total entre o indivíduo e a imagem que constrói de si mesmo e isso faz com que fique extremamente suscetível a qualquer tipo de manipulação. Em acepção vulgar, autoimagofobia é designativo de um comportamento caracterizado pela mania de se envaidecer por meio da exaltação das próprias qualidades, muitas vezes imaginárias, gabar-se por pertencer a uma linhagem ilustre, nutrir sentimentos de superioridade em relação às outras pessoas. Manifesta-se também através da exposição ostensiva da própria humildade e estoicismo à espera de reconhecimento da sua superioridade moral. É elemento fundamental para a afirmação de um grupo como superior aos demais, dando origem a diversas ramificações comportamentais: nacionalismo xenófobo, todos os tipos de racismo, elitismo, corporativismo e doutrina de povos eleitos. Conforme a interpretação cristã, este vício é capaz de destruir todas as virtudes, pois denota a intenção de o indivíduo ser superior ao próprio Deus, criador de tudo, constituindo-se, em muitos casos, o ponto fraco do virtuoso. Os indivíduos acometidos por esta enfermidade menosprezam os sentimentos das pessoas e têm grandes dificuldades em estabelecer relações pessoais sólidas, embasadas em princípios que não envolvam práticas de coerção. Algumas metodologias formativas adotadas em âmbito corporativo valorizam a manifestação mais ou menos moderada deste comportamento, pois a ausência total dos sintomas característicos deste distúrbio é muitas vezes confundida com falta de autoconfiança e indica capacidade reduzida de utilizar todos os meios à disposição, até mesmo os mais inescrupulosos, para alcançar metas preestabelecidas. Em marketing, constitui matéria de estudos, pois é cientificamente comprovado que técnicas de promoção que empregam um fluxo abundante e repetitivo de imagens de um determinado produto, elaboradas conforme uma lógica específica e nem sempre fiéis à realidade, são eficazes na construção de opiniões positivas a respeito desse mesmo produto. Nota etimológica: a abundância de significados ligada à origem latina da palavra imagem dá margem a digressões interpretativas capazes de influir na construção da relação entre o indivíduo e a ideia de indivíduo. Do latim imago obtêm-se os seguintes significados: imagem, figura, retrato, fantasma, espectro, sombra, espírito dos mortos, ideia, conceito, representação mental, sonho, visão, aparição, aparência, aspecto, imagem ilusória, recordação, eco, reflexo de um espelho, semelhança, comparação, alegoria, fábula, alucinação, descrição. Antídoto ou virtude: humildade.

...

As folhas das árvores não davam muito espaço para a luz passar. Taísa não sabia distinguir muito bem se ali a mata era realmente mais fechada ou se estava escurecendo muito depressa. “Maldita hora em que eu aceitei o convite de uma amiga de um amigo do meu namorado” pensou ela enquanto girava em todas as direções tentando identificar para que lado o sol estava se pondo. Achava que a garota era simpática, mas nem a conhecia direito. Era uma como tantas que descem de vez em quando para o litoral e acham que já são do local porque os pais compraram um apartamento na praia quando eram crianças. “Como é que eu não percebi que isso não ia dar certo?” Taísa havia nascido e crescido naquela cidade à beira-mar rodeada pela majestosa Mata Atlântica. Vinha de uma família de pescadores e era possível que seus antepassados morassem ali desde muito antes que o país fosse descoberto e invadido por aquele pessoal ganancioso que veio do outro lado do oceano e tomou posse de tudo, sem pedir licença. Sempre achou que ela e toda aquela natureza eram uma coisa só. Havia aprendido que com respeito as coisas poderiam seguir o seu rumo harmoniosamente. Mas algo tinha dado errado.
Ela estava tranquila na sua casa curtindo sua manhã de folga quando a Márcia apareceu no seu portão toda sorridente e foi logo dizendo:
“Até que enfim encontrei você! Preciso recolher algumas sementes na mata, você não quer vir comigo?”
Taísa estranhou a presença dela ali, mas achou que não era uma surpresa ruim. Queria mesmo fazer alguma coisa diferente.
“Onde você está pensando em ir?”
“Pensei em pegar aquela trilha do Poção e subir até a parte mais alta do morro. A gente podia aproveitar também para dar um mergulho. Eu não queira ir sozinha, você conhece bem tudo isso aqui, não conhece?”
“Conheço, mas...”
“Mas o quê? Que desculpa você vai dar para ficar em casa sozinha em um dia de folga lindo como esse? A gente não vai muito longe.”
“Tudo bem, espere só um pouco porque eu tenho que fechar a casa.”
Taísa perguntou o que a Márcia estava levando para fazer a trilha e descobriu que ela só tinha uma bolsinha minúscula onde não cabia quase nada. Pegou uma mochila e começou a colocar tudo aquilo que era necessário para uma excursão daquele tipo. Quando terminou de preparar a bagagem, Márcia perguntou se podia guardar a bolsinha dentro da mochila, assim as duas poderiam revezar-se para carregá-la durante a caminhada. Taísa aceitou sem hesitar. Estava pensando em outra coisa. Como morava com a mãe que havia saído muito cedo para trabalhar, pensou em escrever um bilhete para ela dizendo para não se preocupar porque voltaria logo, mas não achou nenhuma caneta ali por perto e acabou não escrevendo nada. Não pretendia voltar muito tarde. Pensou em avisar seu namorado, mas àquela hora ele também estava trabalhando e era melhor não atrapalhar. Ligaria para ele quando estivesse de volta. O sol já estava alto em um dia que estava ficando cada vez mais quente e abafado, como era típico daquela época do ano. Havia aproveitado as primeiras horas da manhã para lavar e estender uma porção de roupas que se tinham acumulado durante o corre-corre da semana. Ela e a mãe dividiam os afazeres domésticos e quando tinha um tempo livre dedicava-se um pouco a isso. A mãe de Taísa trabalhava fazendo faxina em várias casas das redondezas e no verão o trabalho aumentava graças ao movimento constante de turistas; ela não rejeitava nenhuma oportunidade que pudesse trazer um pouco mais de dinheiro para a família, pois da prosperidade daquele breve período dependia a tranquilidade dos meses de vacas magras, que eram muitos. Há algum tempo Taísa havia arranjado um emprego como atendente em uma farmácia no centro da cidade e frequentava uma faculdade noturna de ciências contábeis. Sua mãe, que nunca mediu esforços para não deixar faltar nada à filha, não coube em si de felicidade quando a filha anunciou que pretendia continuar a estudar. Seria a primeira pessoa na família a ter um diploma universitário. Se fosse necessário, trabalharia de dia e de noite para ajudar a filha. O pai de Taísa abandonou as duas quando a menina ainda nem era capaz de pronunciar o seu nome. Moravam em uma casa de três cômodos geminada com a casa do seu avô, que ainda conservava no quintal muitas redes de pesca e passava horas a remendá-las, embora tivesse parado de pescar há muito tempo. O mar não ficava muito distante da casa deles e a trilha do Poção começava ali perto, no pé do morro.
Márcia adorava a natureza. Desde pequena vinha para a casa da praia passar as férias. Toda aquela exuberância da mata nativa exercia sobre ela um efeito quase mágico. Parecia ser um mundo mítico, intocado, como se fosse uma testemunha de um tempo em que a natureza não tinha que pedir licença ao homem para existir. Toda essa fascinação foi determinante para a escolha da sua carreira. Havia concluído o sexto semestre da faculdade de biologia e pretendia se especializar em técnicas de modificação genética para adaptar plantas da mata ao cultivo em outros ambientes a fim de contribuir para a diminuição do extrativismo predatório. Para ela a proteção da natureza era um assunto muito sério. Ajudava economicamente várias associações que defendiam o meio ambiente não só em território nacional, mas em todas as partes do mundo. Participava de tudo o que estava ao seu alcance para defender um modo de vida mais natural. Era vegetariana, usava roupas e sapatos produzidos de modo comprovadamente ético, evitava ao máximo comprar coisas feitas para durarem pouco. Quando realmente tinha que comprar algo, fazia questão de escolher só artigos de alta qualidade. Morava com os pais em uma metrópole caótica na qual a palavra equilíbrio andava muito em desuso. Tudo ali era exagerado: a quantidade de pessoas, o tráfego, a poluição, a pressa, o barulho, a agitação, a impaciência, a ganância, a violência, o medo, a indiferença, a injustiça, a feiura, a altura dos prédios, o lixo. Tinha que fumar muita maconha para aguentar. Achava uma grande idiotice continuarem a manter a proibição de plantar a erva em casa. Toda vez que seu fumo acabava era obrigada a comprar de pessoas com as quais detestava se relacionar. No final das contas, eram todos coniventes com a bandidagem, inclusive ela. Estava tudo errado, tudo. Mas, não adiantava ficar reclamando. Ia vivendo a vida do modo que podia, por mais contraditória que fosse. Quando tudo começava a ficar irritante demais, pegava o seu carro e descia a serra. À medida que o ar carregado de oxigênio e maresia começava a entrar no seu corpo, a sua alma ia se expandindo. Era uma sensação incrível. Às vezes descia a serra só para passar um fim de semana em meio à natureza, mesmo durante o inverno. Durante o tempo em que ficava por lá, procurava evitar lugares movimentados. Gostava de frequentar praias escondidas do grande público que, na maior parte das vezes, permaneciam assim por serem de difícil acesso. Para chegar até elas era preciso caminhar por trilhas que só pessoas do local conheciam. Tinha bons amigos ali. Era um pessoal tranquilo, que curtia as mesmas coisas e vivia na mesma sintonia que ela. Havia conhecido a Taísa e o seu namorado através de um amigo em comum que estudava com eles na única faculdade que havia na cidade. Achava estranho ver aquele pessoal tão legal tentando se especializar em uma matéria ligada a finanças, que, segundo ela, era um assunto que deveria ser completamente reformulado para que fosse possível reverter a situação de miséria e injustiça que vinha arruinando o mundo de forma cada vez mais agressiva. Era uma coisa que precisava ser feita, mas que parecia ser uma tarefa impossível. Quando ouvia entendidos do setor falando ficava impressionada com a segurança que transmitiam enquanto vomitavam um discurso que era a coisa mais surreal já produzida pela cultura humana. Não havia no mundo nada mais paralelo à vida do que o sistema financeiro. Paralelo no sentido mais restrito da palavra. Uma linha que corre paralelamente e que nunca encontra a outra, nem no infinito, mas que se aproxima ao ponto de quase se confundirem; a vida se deixa influenciar e se despedaça, o sistema financeiro consome a vida e segue adiante em direção ao vazio. Mas a sua geração não sabia fazer outra coisa além de sentir-se incomodada com as desgraças do mundo que herdou e deixar-se convencer da eficácia de novos métodos paliativos para fugir da realidade. No fundo, ninguém acreditava em mais nada. Até mesmo os seus amigos do litoral, que só seguiam aquele tipo de estrada porque achavam que não tinham outras opções. Muitos ali viviam do comércio, que era uma das poucas atividades que davam certo em um local turístico como aquele. Quando conheceu a Taísa, gostou dela. Desde que conversaram pela primeira vez achou que era uma garota interessante. Naquela manhã, Márcia havia acordado com vontade de conhecer um lugar diferente. Não estava a fim de água salgada. Queria mergulhar em água doce. Havia ouvido falar de uma piscina natural que o pessoal chamava de Poção. O tempo parecia perfeito. Resolveu passar na farmácia para combinar alguma coisa com a nova amiga e ficou sabendo que era seu dia de folga. Lá, souberam informar mais ou menos onde ela morava. Era um antigo bairro de pescadores que ficava a alguns quilômetros do centro da cidade. Foi até lá, perguntou por ela a alguns moradores e acabou encontrando a sua casa. Ela concordou com a sua ideia. Colocaram-se a caminho.
Havia chovido na tarde anterior e a trilha estava cheia de poças lamacentas, para a alegria da grande variedade mosquitos que as atacavam com voracidade. Pararam para passar mais uma camada de repelente nos braços e nas pernas. Na beira da estrada havia muitas goiabeiras e elas viram que algumas tinham frutas maduras. Comeram até ficarem cheias. Tudo parecia ter um sabor delicioso, até os bichos das goiabas.
A primeira parte da estrada era larga e não muito íngreme. Teriam que caminhar alguns quilômetros durante os quais o caminho se bifurcava várias vezes e era preciso saber muito bem qual direção tomar. Deviam continuar assim até chegarem a uma porteira. Teriam que atravessá-la e pegar uma trilha mais estreita e sinuosa que também se bifurcava em vários pontos ao longo do caminho. Taísa já havia percorrido aquele caminho dezenas de vezes. Na adolescência era uma das suas metas preferidas. Na maior parte das vezes ela ia com um grupo de amigos aventureiros. No final daquela fase namorou um rapaz que morava perto da sua casa e eles passaram a ir para lá sozinhos. Tomavam banho de cachoeira, fumavam um pouco, tomavam sol deitados nas pedras e namoravam preguiçosamente para depois mergulharem de novo na água gelada e transparente. Que período bom foi aquele. Só tinha que pensar em ir à escola, onde ninguém se importava realmente se ela estudava ou não, e curtir a vida. O mundo era uma coisa distante, tão real quanto um filme que por acaso se assiste à tarde na televisão, mas que não é muito interessante. Toda aquela felicidade ingênua acabou de repente quando seu namorado foi encontrado assassinado aos vinte e um anos em uma vala no próprio bairro onde moravam. Foi um choque. Disseram que foi um acerto de contas entre traficantes. Embora desconfiasse de alguma coisa, Taísa nunca havia perguntado quem eram os caras que às vezes encontravam na rua e que seu namorado cumprimentava com respeito e com um certo temor dissimulado e nem como ele estava fazendo nos últimos tempos para ter sempre à disposição dinheiro, fumo e tantas outras pequenas coisas. Sabia que ele não estava trabalhando. Ele sempre falava que não valia a pena ser escravo como os otários que se matavam de trabalhar para depois serem humilhados. Dizia “pobre não vale nada aí fora. Nós não vamos desperdiçar a nossa vida fazendo coisas sem sentido, vamos aproveitar ao máximo enquanto podemos. Eu estou dando um jeito nisso. Logo vou fazer uma casinha para nós aqui no morro e vamos deixar que o mundo se foda com suas regras para aprisionar as pessoas em uma vida infeliz.” Depois do que aconteceu, a vida de Taísa não pôde mais ser a mesma. Sua mãe não sabia como consolá-la; sentia-se impotente, magoada e, ao mesmo tempo responsável pelo destino que a filha poderia ter tido. Não conseguia tirar da cabeça a imagem da filha jogada naquela valeta fétida, violada e sem vida. Repetia para ela “nós somos pessoas honestas, temos os nossos problemas, mas não fazemos mal a ninguém. Você queria mesmo ser mulher de bandido? Era isso o que você queria? Depois de tudo o que eu fiz para dar a você uma vida digna?” No início Taísa revoltou-se contra tudo. Queria morrer. Odiava todos. Se pudesse, explodiria em pleno culto a igreja que a sua mãe frequentava, com toda aquela gente dentro que não entendia nada de nada e não parava de repetir insanidades como se tivessem entendido tudo. Estava enlouquecendo de tanto ouvir palavras desprovidas de qualquer compreensão real daquilo que se passava dentro dela e ver as expressões de satisfação daquelas pessoas que se imaginavam preenchidas por algum tipo de poder divino e, ao mesmo tempo, expulsavam centelhas de idiotia através de olhos dominados por uma altivez alucinada que era uma espécie de revanche inútil contra a ignorância massacrante que não parava de comprimir a mente delas. Estava cansada daquilo. Ninguém tinha autoridade suficiente para ajustar as coisas, ninguém. Se aquela era a justiça de deus, ele só poderia ser um grande filho da puta. O que lhe restava para viver dali para frente? Nada. Pensou qual seria o modo melhor de acabar de uma vez com toda aquela palhaçada. Cogitou várias possibilidades. Rejeitou a maior parte delas, porque as formas que conhecia de automutilação lhe causavam uma inexplicável repulsa. Por mais que detestasse sua vida não tinha coragem de atentar diretamente contra o próprio corpo. Toda vez que tentava, sentia-se derrotada pela própria covardia. Uma vez, sozinha em casa passou em revista todas as lâminas que tinha à disposição. Achou uma faca grande que sua mãe havia afiado recentemente e que usava para limpar os peixes. Tentou imaginar quantos peixes haviam sido cortados com ela sem que nenhum drama se desencadeasse. Reconstruiu mentalmente o movimento suave da lâmina bem afiada entrando na carne da barriga, as vísceras sendo retiradas com rapidez e jogadas no lixo, os pequenos cortes feitos na pele para que o tempero pudesse penetrar. Não seria tão difícil cortar um pouco de carne com aquela faca. Mas viu também a sua mãe temperando o peixe. Viu como ela amassava os dentes de alho descascados e as ervas perfumadas e misturava tudo com o sal formando uma pasta de cheiro forte. Viu sua mão passando o tempero no peixe e espremendo limão sobre ele. Aquilo era um alimento, não um símbolo de morte apesar de o peixe estar morto. Nunca conseguiu entender exatamente o que aconteceu naquele dia, mas a partir dele começou a se sentir menos atraída pela ideia de acabar com a própria vida. A raiva foi passando lentamente como se fosse uma estação do ano. De repente ela estava de novo sem saber muito bem o que fazer, mas com vontade de fazer alguma coisa.
As duas caminhavam sem pressa e Márcia parava de vez em quando para recolher algumas sementes. Já estavam bem embrenhadas na mata quando ela tirou a sua bolsinha da mochila que no momento Taísa carregava e pegou um baseado enrolado com capricho e um isqueiro. Acendeu-o com naturalidade, deu umas tragadas e ofereceu para Taísa que recusou.
“Não fumo, parei já faz tempo”.
Márcia ficou um pouco surpresa e perguntou:
“Eu não sabia, você se importa se eu fumar?”
Taísa respondeu que não e fechou-se em si mesma. Andaram por um bom trecho em silêncio até que Márcia resolveu interrompê-lo para entender melhor o que estava se passando. Achou que talvez tivesse feito ou falado alguma coisa que tivesse chateado a companheira. Voltou-se para ela e perguntou:
“Está tudo bem? Ficou calada de repente. Falei alguma coisa que você não gostou?”
“Não se preocupe, não tem nada a ver com você, é coisa minha. Daqui a pouco passa.”
Continuaram caminhando, cada uma entretida com seus próprios pensamentos. Taísa ficou um tempo refletindo se valia a pena ou não falar sobre o que estava sentindo com aquela garota que não sabia absolutamente nada sobre a sua vida, mas que parecia já estar bastante satisfeita com a ideia superficial que havia construído a respeito dela. Parecia que não lhe interessasse ir muito além. Então, preferiu não mencionar nada a respeito das sensações estranhas que a invadiam naquele momento. Já havia aprendido a duras penas que na maior parte dos casos era uma grande perda de tempo falar sobre coisas pessoais com quem ela não conhecia muito bem. Decepcionou-se com muita gente que no início tinha pinta de ser bacana, bem resolvida, sensível, que parecia gostar das pessoas e das coisas simples da vida, mas que, na verdade, não era nada disso. Na hora “H” esses sujeitinhos agiam como se tivessem nascido com um bilhete de primeira classe na mão, como se garantir o melhor lugar para si mesmos fosse a única coisa importante no mundo. Só se interessavam realmente por aquilo que pudesse representar uma vantagem para eles, os outros que se ferrassem. Não estavam nem aí. O mundo podia estar desmoronando ao redor, mas se ficassem ilesos, tudo bem. Por trás da aparência legal, eram uns tremendos chatos. E esse defeito era muito comum no pessoal “alternativo” cheio de grana que vinha passar um tempo na sua cidade ou decidia instalar-se definitivamente em uma casa estilosa no meio do mato. Mas analisando bem as coisas, tinha que admitir que esse modo de agir não dependia apenas da classe social. Conhecia muito pobre que também era daquele jeito, mesmo não tendo quase nada na vida. Ela não sabia dizer qual tipo era o mais ridículo. Havia também a turminha dos exibicionistas, para com os quais não tinha a menor paciência, mas Taísa implicava realmente com aqueles que competiam para ver quem conseguia ser o mais heroicamente fodido na vida, que disputavam para ver quem resistia melhor às desgraças que eram quase tão frequentes no seu cotidiano quanto respirar. Porém, considerava que os perigosos de verdade - porque sempre acabavam arruinando seriamente a vida dos outros - eram os que se organizavam em grupos e se consideravam eleitos para fazer algo muito especial. Na maioria das vezes, a coisa que eles tinham a fazer era tão maravilhosamente especial que nem dava para entender o que era. Ninguém entendia direito, mas isso só aumentava a certeza de que era algo muito importante. Uma espécie de delírio coletivo. Insuflar o lado misterioso das coisas é um modo astuto para agregar um valor acessório, e intangível, a coisas que deveriam ser regidas pelo simples bom senso. Religiões, doutrinas, regimes e utopias justificam-se através da existência do lado oculto que envolve todas as coisas, exilando do reino da poesia aquilo que não é capaz de manter a própria integridade em nenhum outro lugar. Taísa lembrava-se de ter lido algo parecido recentemente, mas não se lembrava de onde. Na verdade, o importante era acreditar ou simplesmente manipular a coisa para fazer com que os outros acreditassem nela, pois, em sociedade, uma farsa que se finge junto é realidade. Desde que o mundo era mundo vinha sendo povoado por esse tipo de gente e iria continuar daquela maneira ainda por muito, muito tempo, até que a raça humana sofresse alguma mutação genética que extirpasse aquela necessidade doentia de afirmação. Taísa sabia que ela mesma não estava livre daquele defeito de fabricação, mas procurava manter-se dentro de uma média aceitável. Não havia nada a fazer a respeito. Em relação à sua nova amiga, ainda não sabia ao certo em que categoria encaixá-la, mas sabia que devia ser precavida em relação a ela, pois aquela atitude de colocar fumo na sua mochila sem avisar era uma demonstração de que não se importava muito com a opinião de quem estava ao seu lado. Era sempre a mesma história. Não podia abaixar a guarda para não deixar que nenhum espertinho montasse nas suas costas. “Se aprontar mais alguma, vou dar um belo chacoalhão nessa garota, ela que não brinque comigo” disse a si mesma. Mas, na verdade, aquelas coisas corriqueiras não eram o motivo da sua perturbação. O que estava acontecendo era que naquele momento algumas recordações estavam vindo à tona com uma força inesperada. Talvez tivesse sido por causa daquele cheiro forte que saía do baseado combinado a um cenário sugestivo que ela não via há muito tempo. Era a primeira vez que voltava lá depois de tudo o que havia acontecido. Passaram-se alguns anos desde então e quando finalmente conseguiu superar a fase mais difícil resolveu colocar uma pedra sobre o passado. Enterrou toda a dor e também tudo o que havia sonhado naquele período. Toneladas de sonhos e ideias que não cabiam mais na sua vida. Sentiu-se incomodada quando, por alguns instantes, teve a sensação de que mais alguém caminhava ao seu lado ali na estrada. Seu coração acelerou e a sua pele ficou toda arrepiada. Tentou dissipar aquela presença apertando mais o passo.
Aos poucos o clima entre as duas foi se descontraindo novamente. Pararam várias vezes para pegar mais sementes e falaram sobre muitas coisas sem importância. Alcançaram a porteira e entraram na trilha mais estreita. A partir daquele ponto, estavam dentro de uma propriedade privada, mas não havia ninguém para tomar conta dela e podiam seguir tranquilas. Era a primeira vez que Taísa subia ali sem ter ao seu lado mais alguém que também soubesse o caminho, mas tinha certeza de que se lembrava bem. A subida era íngreme e a respiração acelerada impedia que falassem muito. Já conseguiam ouvir ao longe o barulho de vários cursos d’água que desciam a ribanceira com muita força. Em meio à vegetação era possível ver algumas espécies vegetais diferentes daquelas mais comuns presentes no pé do morro. Dava para perceber que era um lugar bem preservado. Estavam subindo um trecho particularmente acidentado e cheio de pedras quando Márcia se maravilhou ao avistar a uma certa distância da trilha uma árvore enorme que achou que fosse uma espécie ameaçada de extinção. A partir daquele ponto a trilha se desmembrava em uma série de pequenas passagens mais ou menos estreitas em meio a formações rochosas de vários tamanhos. Taísa avisou a companheira que era melhor ela não se afastar sozinha da trilha, pois ali era fácil de se confundir e pegar uma direção errada. Só que quando falou isso, ela mesma já não tinha tanta certeza de que havia escolhido o caminho certo. Não conseguia se lembrar muito bem, mas parecia que das outras vezes não havia passado por um lugar tão difícil de atravessar. Poderia ser apenas uma impressão, pois depois de alguns anos era de se esperar que a paisagem estivesse um pouco diferente. Talvez a trilha que conhecia tivesse se fechado naquele ponto e agora o caminho fosse aquele. Resolveu não falar nada para não alarmar a companheira. Márcia não deu muita importância ao que a outra estava falando. Sabia que às vezes o pessoal do local exagerava tratando-a como se não soubesse se comportar em uma situação como aquela. Há anos fazia trilhas em lugares isolados e não era nenhuma ignorante no assunto. Preferiu fazer de conta que não havia ouvido a advertência. Não adiantava perder tempo tentando explicar que ter encontrado aquela espécie rara era algo tão fantástico que seria uma idiotice desperdiçar a oportunidade de pegar algumas sementes. Tinha ido ali para isso. Quando já havia dado alguns passos destemidos e um pouco desequilibrados em direção à mata fechada, voltou-se para trás e disse simplesmente que voltaria logo. Taísa, ao ouvir aquilo, resolveu sentar-se sobre uma pedra e esperar. Achou que a Márcia era já era bem grandinha para saber o que podia ou não fazer. “Afinal de contas, não sou a sua babá e nem o seu guia turístico particular. Ela que vá sozinha” pensou. De repente, lembrou-se de um detalhe e falou bem alto para que a Márcia pudesse ouvir:
“Espere! Volte aqui! Deixe a mochila comigo!” e ouviu uma voz distante responder:
“Não precisa se preocupar, eu já volto!”

Taísa estava irritada.  Mal podia esperar para dar um mergulho na água gelada, pois o calor era forte e os mosquitos pareciam querer arrancar pedaços do seu corpo. Era um grande alívio quando uma brisa fresca soprava de vez em quando. Precisava passar mais repelente e estava sem a mochila. Queria saber que horas eram, mas o seu celular também havia ficado lá dentro. Estava começando a reavaliar seus planos, pois quando saíram da sua casa a manhã já estava pela metade e haviam parado muitas vezes durante o percurso para recolher as malditas sementes da Márcia. Ainda tinham um bom pedaço de estrada pela frente e depois o retorno. Talvez fosse melhor desistir de chegar ao Poção e voltar para casa. Não podia nem imaginar a ideia de percorrer aquela trilha no escuro. Após alguns minutos começou a ficar impaciente. Levantou-se e chamou bem alto a companheira pelo nome. Ninguém respondeu. A impaciência cedeu lugar à preocupação. Não podia ficar ali parada, mas, se saísse, sabia que correria o risco de se perder ou de se desencontrarem. Gritou com mais força o seu nome e continuou a não receber resposta. Resolveu caminhar em direção à árvore que havia chamado a atenção de Márcia. Procurou por uma árvore bem grande, mas não identificou nenhuma que fosse particularmente diferente das outras. Não conseguia distinguir muito bem a diferença entre elas. A um certo ponto parou desanimada perguntando-se onde aquela irresponsável tinha ido parar. Se fosse mais para longe, o risco de se perder aumentaria. Tinha que decidir rapidamente o que fazer. Não era culpa dela se a outra era uma desvairada que só pensava em si mesma. Se as duas se perdessem, quem as acharia se ninguém sabia para onde tinham ido? Estava voltando lentamente na direção das pedras quando uma ideia passou pela sua mente e paralisou seus movimentos. “Ela pode ter desmaiado. Escorregou na ribanceira e bateu a cabeça. Se ficar ali sozinha pode morrer. Preciso encontrá-la. Se eu achar a mochila posso tentar chamar alguém pelo celular.” Deu meia volta e tentou se orientar. Caminhou por entre as árvores às quais muitas vezes teve que se agarrar para não deslizar ribanceira abaixo. Depois de um bom tempo sem encontrar sinais da passagem da Márcia, atingiu um ponto menos íngreme e percebeu que já havia passado por ali. Parou, muito confusa. Estava exausta e sentia muita sede. Perdeu a conta das horas. Olhava para cima para tentar se orientar. O céu parecia ter escurecido de repente e o vento soprava forte. Uma tempestade estava se formando. Podia ouvir o som dos trovões que rugiam cada vez mais próximos. Sentiu o pânico dominá-la diante da possibilidade de passar a noite sozinha naquele lugar. Pensou nos seus medos e nos fantasmas que teria que enfrentar. Em um primeiro momento, sentiu uma raiva feroz de Márcia por tê-la colocado naquela situação. Talvez estivesse morta. Depois sentiu raiva de si mesma. Deveria concentrar-se para sair viva dali. Só queria entender uma coisa. Perguntava-se como fora cair em uma armadilha como aquela. 

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